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No final dos anos ‘80 o Miguel Esteves Cardoso foi convidado para um debate na TV na sua qualidade de cabeça de lista do PPM ao Parlamento Europeu.

Mas o debate tinha uma hierarquia: num dia iam os 4 candidatos dos partidos com representação parlamentar, e num outro dia ia uma turba de não-sei-quantos candidatos dos outros partidos todos.

O MEC não achou a situação aceitável à luz do princípio da igualdade no tratamento das candidaturas a que as TV's estavam obrigadas, e declinou o convite.

Escreveu um comunicado que foi lido pelo moderador do debate dos chamados pequenos partidos, que lamentou a sua ausência e o facto de o MEC não ter ido pessoalmente ao programa de TV esclarecer a sua posição (mesmo que depois abandonasse do debate).

A sua decisão não era fácil porque faltar ao programa era perder uma oportunidade importante para dar visibilidade à sua própria candidatura, mas o MEC não queria ir ao debate para dizer mal dos moldes em que se desenrolava o próprio debate.

Para ele era acima de tudo uma questão de educação: - não se vai jantar a casa de uma pessoa para dizer mal do bife – confidenciou ele mais tarde a um grupo onde eu me encontrava.

 

E eu lembro-me demasiadas vezes deste episódio – recordo-o sempre que vejo as páginas de facebook de amigos serem minadas por gente maldizente que comenta com violência ou se envolve em discussões iradas com o autor ou com outros comentadores.

Já não nos bastavam as caixas de comentário dos jornais (que por higiene e pudor não leio) ainda temos que assistir por vezes à transformação de páginas pessoais de amigos em verdadeiros “fóruns” de pugilato e verborreia.

Eu sou alérgico à unicidade e ao unanimismo, entenda-se.

Gosto de discussões acaloradas, mas quando se mantém a urbanidade e existe evidente intimidade entre as pessoas - entre verdadeiros amigos vale (quase) tudo e poucas coisas batem em entusiasmo uma boa discussão entre amigos.

Mas há muita gente que não conhece os limites da razoabilidade (que reconheço ser um conceito por demais subjetivo), nem da boa educação, nem percebe os limites da (falta de) intimidade.

Gosto mais de me envolver numa discussão à mesa do café do que numa caixa de comentários do facebook, e muito menos na página de outra pessoa.

Quando leio alguma coisa e me apetece logo comentar, esforço-me por filtrar o meu comentário à luz das 3 perguntas clássicas: - É verdade? - É necessário? - É amável?

Sei que nem sempre consigo, mas esforço-me por filtrar e muitas vezes acabo por engolir em seco e passar à frente.

Uma página pessoal é isso mesmo; a página de alguém – é a casa virtual de uma pessoa.

Não se vai lá a casa para dizer mal do bife...

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publicado às 00:42

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Eu tento ser militantemente do contra.

E como fã irredutível Monty Python, juro que tentei ficar do lado do Terry Gilliam no meio desta confusão toda.

Primeiro resisti à tentação de me indignar logo com as primeiras notícias incendiárias que falavam de um Convento de Cristo em Tomar “parcialmente destruído” (credo).

Depois esperei que surgissem mais notícias, imagens, justificações oficiais, enfim... mais fontes para poder saber melhor o que pensar sobre a polémica das filmagens em Tomar.

Ao fim de alguns dias a poeira foi assentando e o Convento de Cristo que tinha sido “parcialmente destruído” afinal parece que teve como danos (a fazer fé nas notícias mais recentes) 6 telhas partidas e 4 fragmentos de pedra danificados o que corresponde a 2.900€ de danos que a produtora do filme irá pagar.

 

Parece que não foi grave, ou pelo menos não terá sido tão grave quanto inicialmente se supunha.

Falso.

É grave, é mesmo muito grave.

 

Pessoalmente acho óptimo que se arrende património para fins culturais (ou outros) como estratégia para o divulgar e/ou ajudar a rentabilizar.

Ainda recentemente o Museu dos Coches foi utilizado durante o 1º Salão Internacional do Veículo Elétrico, Híbrido e da Mobilidade Inteligente , juntando no mesmo espaço os coches centenários e os veículos do futuro amigos do ambiente, sem colocar em risco físico o património existente – é um exemplo de uma boa ideia que promove o nosso património e assegura receitas extra para o museu em causa.

 

Mas aquilo que aconteceu em Tomar ultrapassa tudo aquilo que seria recomendável.

Em primeiro lugar, e reconhecendo a minha ignorância na matéria, não percebo como é que em 2017 é preciso fazer de facto uma fogueira de 20 metros para filmar uma fogueira de 20 metros – estava convencido que os efeitos especiais no cinema estavam um bocadinho mais avançados do que isso e se podiam simular factos e acontecimentos sem ter que os reprodizir à escala real - à partida o recurso a maquetes e a meios digitais permite isso com economia de custos e de riscos.

Permitir que se faça uma fogueira com 20 metros de altura (a altura de um prédio de 6 andares) dentro dos claustros do convento, alimentada por 20(!) botijas de gás é uma perfeita aberração.

De pouco me interessa que digam que estavam presentes representantes dos bombeiros e a proteção civil – se as botijas explodissem o que faria essa gente para além de falecer com estrondo?

De pouco me interessa que digam de que havia um seguro de 2,5 milhões de euros – se houvesse uma explosão a seguradora construía um Convento de Cristo novo, a estrear, pelo valor de uma moradia no Restelo? Com uma Janela do Capítulo em pladour?

 

De todas as explicações que li, a mais fofa (chamemos-lhe assim) vem da representante da produtora. Diz Pandora da Cunha Telles que o facto de o monumento aparecer no filme “contribuirá, esperamos, para incrementar o interesse em Portugal, trazer mais turistas ao país”.

A ver se entendo...

O filme chama-se “O homem que matou Dom Quixote” e a fogueira da polémica evoca (nas palavras do realizador) as festas populares de Las Fallas em Valência.

Portanto a senhora Pandora acha que as pessoas vão ver um filme sobre a mais importante personagem da literatura Espanhola onde há uma cena que evoca uma festa popular de uma cidade Espanhola e vão dizer: “- Ai pá, temos que ir a Portugal, caraças”  (e dizem isto nas suas línguas maternas).

Ó Pandora, ou distribuem um flyer com uma ficha técnica onde explicam a localização de todos os pontos de filmagem (e obrigam o público a lê-la), ou então provavelmente a exibição do filme vai contribuir tanto para a promoção de Portugal como da Nova Zelândia ou do Cazaquistão.

 

Agora a sério, ainda bem que tudo acabou sem danos irreparáveis.

Mas entre outros fins relevantes, eu também pago impostos para que o património seja preservado e salvaguardado, e para que as pessoas que sofrem de distúrbios mentais mais ou menos graves tenham o devido acompanhamento médico se for caso disso.

A verdade é que todas as reações oficiais até ao momento roçam o anedótico.

Bom, pelo menos nisso são dignas de um filme dos Monty Python.

 

 

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publicado às 23:17

Desta vez foi diferente; estranhamente diferente. 

Há cerca de um mês um comboio de autocarros cheios de civis foi atacado na Síria fazendo mais de 100 mortos entre os quais, pelo menos, 68 crianças.

Por cá não se falou muito no assunto - eu soube porque alguém partilhou um artigo do Independent.

As atrocidades da guerra da Síria tornaram-se demasiado frequentes e já não fazem cabeçalhos nem aberturas de telejornais.

E já se sabe que, naturalmente, são os ataques terroristas nas “nossas” cidades que provocam as maiores ondas de choque e indignação.

É natural - quando as vítimas são pessoas que têm modos de vida com os quais nos identificamos, sentimo-nos mais próximos; e quando os ataques ocorrem em sítios que conhecemos, onde temos amigos ou em ruas que já calcorreámos, sentimo-nos mais expostos.

Quando se ataca um autocarro com refugiados na Síria são “eles”, mas quando se ataca numa esplanada de Paris podíamos ser “nós”.

 

Mas ontem foi diferente, foi estranhamente diferente.

Ontem houve um atentado terrorista numa cidade inglesa, num concerto onde estavam milhares de pessoas, muitas delas jovens, e não senti o nosso mundo a abanar.

Ontem não vi milhares de pessoas a mudarem a foto de perfil, não vi nenhuma app  que de repente pusesse a Union Jack nas fotos, não vi nenhuma corrente JE SUIS  nem nenhuma torrente de posts indignados ou consternados.

Só umas notas avulsas, uma ou outra partilha de um artigo de jornal e pouco mais, rematados com um singelo #PrayForManchester.

Se querem que vos diga muito honestamente, acho que vi mais gente na minha feed a lamentar a morte do Roger Moore (parecendo que não, morreu com 90 anos) do que a lamentar as 22 vítimas mortais do atentado de Manchester.

E eu próprio me senti de alguma forma arrastado para uma espécie de onda de normalidade; até tenho o hábito de fazer uma foto de perfil ou de capa especial na minha página quando acontece uma aberração desta natureza mas desta vez não me senti compelido a fazê-lo.

No reino do facebook pareceu um dia normal...

Nem o facto de ser uma cidade com a importância de Manchester, a cidade do Tony Wilson, dos Joy Division/New Order, dos Smiths e do movimento MadChester, ou a cidade do Cantona e do Beckham e do Sir Alex Ferguson, ajudou a criar uma onda de solidariedade e consternação como as que vimos noutras ocasiões.

Será que se este atentado tivesse ocorrido há 3 ou 5 anos a reacção teria sido diferente?

Será que estamos a ficar indiferentes a tudo?

Só quando ao fim da tarde fui buscar as minhas filhas à ginástica é que o assunto veio à baila, por iniciativa delas - queriam saber notícias, detalhes, explicações...

 

Eu sei que existe uma corrente instalada que nos diz que o objectivo dos terroristas é criar medo e divisão na nossa sociedade e que se mostramos o nosso receio ou tristeza ou pavor estamos a entrar no jogo deles e a dar força à sua forma de luta.

Eu não quero entrar no jogo deles e, com a minha tristeza e compaixão, ajudar a alimentar a motivação dos terroristas.

Mas também não sei se esta apatia e indiferença perante as 22 pessoas assassinadas em Manchester é um caminho que, moralmente, me apeteça percorrer.

E não sei se esta aparente apatia, esta passividade perante um massacre, não nos mata também por dentro enquanto comunidade.

A História ensina-nos que indiferença também mata...

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publicado às 00:19

Esta semana fomos todos confrontados com a divulgação de um vídeo (por parte do Correio da Manhã) onde se vê uma jovem a ser agredida sexualmente num autocarro enquanto o resto dos passageiros se ri e incentiva o agressor.

Perante tamanha violência, confesso que me apeteceu comprar umas caixas de acendalhas e reservar o Terreiro do Paço para uns autos de fé onde caberiam o agressor, muitos dos passageiros bem como os responsáveis pelo pasquim.

Contive-me muito para não escrever sobre o assunto e ainda bem que o fiz – não há nada como conter o primeiro impulso incendiário e deixar assentar alguma poeira para depois conseguir refletir com um pouco mais de frieza (ou lucidez) sobre o assunto.

E como tantas vezes acontece quando me ponho a pensar nas coisas, acabo com muito mais dúvidas do que certezas.

 

As poucas certezas que tenho são as de que o agressor é uma besta e um predador, os amiguinhos não são melhores do que ele e o Correio da Manhã é um esgoto a céu aberto.

 

Ainda assim, há várias perversidades no meio disto tudo; vamos por partes...

 

Estou convencido que é o vídeo que faz a notícia. Sem vídeo não havia indignação e tudo se resumiria a um não-acontecimento ou a uma pequena nota de rodapé fazendo alusão a um alegado abuso, uma alegada vítima e um alegado agressor; seria uma pequeníssima notícia canibalizada pelo frenesim das demais notícias do dia.

Mas por causa da existência e publicação do vídeo, aquela agressão transformou-se na notícia do dia provocando ondas de choque e indignação, mas também de reflexão e de tomada de consciência do muito que temos que fazer se quisermos caminhar para uma sociedade que se pretende civilizada (o que é sempre benéfico).

Experimentem a googlar  “jovem violada” para verem quantas dezenas ou centenas de violações (bem mais graves) foram apenas notas-de-rodapé nos media sem terem gerado esta onda de reações...

Por outras palavras, o problema para mim pode nem estar tanto na divulgação do vídeo (no seu site o CM distorceu as imagens a ponto de ser impossível identificar a vítima) mas sim na forma como é feito e no órgão onde é feito.

Se um meio de comunicação social de referencia tivesse divulgado o vídeo com as imagens distorcidas e uma nota do conselho de redação a explicar que o faziam não pelo exibicionismo grotesco mas antes como forma de alerta contra todo e qualquer abuso sexual e para que se promova uma discussão sobre o nosso papel enquanto sociedade na luta contra este tipo de abusos, talvez o efeito não fosse tão perverso.

Mas ser o Correio da Manhã a fazê-lo com o teaser “VEJA O VÍDEO” muda tudo.

A perversidade é precisamente essa: a publicação por parte do CM é apenas um nojo, mas sem isso não estaríamos a falar na urgência de combater a violência sexual, o preconceito de género e a objetificação da mulher.

 

O drama da vítima é o mais importante no meio disto tudo e também não sei se esta onda de indignação (ou de solidariedade e compaixão pelo que lhe aconteceu) a ajuda muito.

O crime terá ocorrido há uns dias e, pelo que sabemos, não foi feita nenhuma queixa.

Mas a partir do momento em que outras organizações pegam neste caso concreto e procuram que as autoridades atuem, será que estão a agir de acordo com a vontade da vítima?

Até pode ser que a vítima não tenha tido inicialmente coragem para formalizar uma queixa e pode ser que esta onda de solidariedade lhe dê a força e o apoio de que precisa para o fazer.

Mas também pode acontecer que a vítima prefira tentar esquecer o que aconteceu (o que também seria legítimo) e se calhar estamos todos a meter-nos na vida dela e a tentar empurrá-la para um processo que ela pode não querer assumir.

Aparentemente a PJ está a tratar o caso como crime semi-público pelo que depende de queixa da vítima.

Mas se condicionarmos a vítima para avançar com um processo crime que a levasse a depor e a dar a cara publicamente, não estaremos a agredi-la novamente?

Não se estará a forçar a vítima a uma exposição acrescida e a uma nova humilhação que ela pode estar a tentar evitar a todo o custo?

Só a vítima o sabe e da vontade dela pouco sabemos o que torna tudo isto ainda mais perverso.

 

A última perversidade advém do abuso de linguagem a que assisti nalguns posts e comentários (legitimamente) indignados em que se falava abertamente de violação.

Não, meter a mão dentro das calças da vítima não é uma violação.

O mal têm definições e graduações para que saibamos do que se está a falar.

Acontece o mesmo com os crimes.

Aquilo que aconteceu será um acto de violência sexual, uma agressão sexual, uma humilhação sexual (não faltarão adjectivos) e o facto de ter sido filmado e divulgado só agrava a situação.

Mas chamar-lhe violação é menosprezar, ainda que involuntariamente, o drama e a violência de que foram vítimas todas as mulheres que foram de facto violadas.

E isto não tem a ver com pôr paninhos quentes ou diminuir a gravidade dos factos – é apenas trata-los com um mínimo de rigor.

Nós não damos nomes aos actos (ou aos crimes) só porque eles nos chocam.

Uma agressão física, por grotesca e violenta que fosse, não passava a ser homicídio só porque nos indigna muito.

Há uns tempos uma cineasta francesa realizou uma curta-metragem, seguramente bem intencionada e com o intuito de alertar consciências para o problema das violações dentro do casal; mas para tornar o seu grito de alerta mais dramático, acaba por colocar praticamente no mesmo plano moral e ético a cena de violação (e brutal espancamento) do filme Irreversível e uma cena de sexo entre um casal de namorados em que ela não está com muita vontade, começa por dizer que não mas acaba por aceder.

Ela querer explicar que também existe violação dentro do casamento (e é claro que existe); mas ao filmá-la daquela forma trata a violação como se fosse apenas um contratempo, uma chatice, uma queca que não estava a apetecer mas que se acaba por deixar acontecer.

E esta leviandade de desvalorizar a violação parte muitas vezes das próprias mulheres; têm tanta vontade de se revoltar (legitimamente) contra a proliferação de agressões sexuais que exageram na adjectivação para provocar o choque e acentuar a gravidade do fenómeno.

E isso é perverso.

 

Faz um bocado lembrar as pessoas que se chocam tanto com atropelos aos direitos humanos que perdem a noção da realidade e desatam a comparar tudo ao holocausto.

Não, a guerra na Síria não é o holocausto. É horrível ver crianças a morrer em directo na TV, mas aquela monstruosidade não é o holocausto.

Não, meter a mão dentro das cuecas de uma miúda e apalpá-la não é uma violação. É horrível ver uma miúda indefesa a ser humilhada e abusada com uns palhaços a filmarem e grunhirem de entusiasmo, mas aquilo não é uma violação.

 

Senão, quando acontece de facto uma violação, chamamos-lhe o quê?

Como é que exageramos? Que nome damos?

 

Para acabar recomendo este vídeo.

Só porque sim. É raro ver um violador e uma vítima a darem a cara.

É preciso ter muita coragem para assumir que se sofreu uma violência do tamanho da violação, mas também é preciso coragem (ainda mais rara) para assumir que todos temos um lado negro que pode vir à superfície.

Vale a pena...

 

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publicado às 00:24

Podia parecer mal este ser o único blog de Portugal e arredores a não fazer um post sobre o Salvador Sobral por isso, cá vai.

 

Nota prévia: eu não gosto de unanimismos e unicidades – tenho alergia, dá-me urticária.

Posto isto, e perante o enervante entusiasmo em relação ao novo formato do nosso Festival da Canção, tratei de não lhe ligar pevide.

Nem o facto de também participar a Márcia (e eu sou Marciano, acreditem) me levou a ligar a tv naquela noite.

 

Depois ganhou o Salvador Sobral e o entusiasmo em relação à canção vencedora tornou-se insuportável.

Por essa razão, e porque eu não sou de embirrar sem conhecimento de causa, fui ver que fenómeno era esse que estava a criar tão enervante unanimidade.

Como bom velho dos Marretas, lá fui saber quem era o cantor para o poder deitar abaixo com propósito e maneiras.

Então mas não é que o Salvador Sobral é aquele concorrente do Ídolos de há uns anos?

Aquele da única edição que eu segui e que até era o concorrente com quem eu mais simpatizava?

Ora bolas, não vou conseguir embirrar com ele.

Canta lindamente, tem (muito) bom gosto musical e tem “sou uma joia de moço” escrito na testa; olha-se para ele e simpatiza-se logo.

 

Bom, mas um marreta não desiste – de certeza que consigo malhar no autor da canção que toda a gente estava a adorar.

Ah! Ca porra. É a Luísa Sobral que é irmã dele e eu não sabia.

Que chatice... eu era incapaz de embirrar com ela. Adoro-a.

Por acaso só tenho um disco dela e só a vi ao vivo uma vez mas tenho um fraquinho muito sério pela Luísa Sobral.

Gosto de rigorosamente tudo nela.

Da voz, das canções, da imagem, da intervenção cívica... aquele arzinho de fada a cantar com a harpa é, para mim, absolutamente irresistível.

Não és tu Joanna Newsom, é ela...

 

Bom, mas se não consigo embirrar com o cantor nem com a compositora, ainda posso embirar com a canção.

Mesmo aquele duo pode ter um momento de desinspiração e, sendo o Festival da Canção, de certeza que a canção é manhosa.

Ehhh... Não!

Irra que a canção é belíssima e a letra é maravilhosa.

Como é que uma balada tão suave e apenas sussurrada consegue entrar no ouvido a ponto de eu a assobiar quando estou a pôr a loiça na máquina ao fim da primeira audição?!?!

Ó pá, acreditem que eu tentei manter-me à margem daquilo, fiz de conta que não sabia o que era, e quando fui ver fui munido de uma vontade inabalável de dizer mal e de deitar abaixo só para ser do contra.

A verdade é que não consegui

Salvador.jpg

Os manos Sobral não me deixaram ser marreta.

Só por causa disso fico a odiá-los um bocadinho...

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publicado às 20:00

Quando decidi que iria para humanísticas o meu pai estranhou.

Eu não era particularmente bom aluno a nenhuma disciplina e, não revelando nenhum gosto especial pelas ciências exatas, também não tinha um grande entusiasmo pelas ciências humanas.

Em miúdo tinha devorado livros; os de aventuras (dos 5 e dos 7), os proibidos para a idade (como o Drácula do Bram Stoker) e os dos adultos que lia para parecer crescido sem perceber patavina (como uma peça de teatro do Sartre ou um livro do Gorki).

Devorava livros, sobretudo nas férias.

Mas depois, por alguma razão, desinteressei-me dos livros e acabei por me limitar a escolher a área de estudos que não tinha matemática, indo também atrás do élan que a profissão de jornalista tinha na altura.

O meu pai, preocupado com a minha falta de hábitos de leitura, resolveu emprestar-me um livro que lhe parecia fácil a ver se eu retomava o gosto pelas letras:

As Palavras dos Outros do Baptista-Bastos.

O livro é fácil porque, sendo uma compilação de entrevistas, pode ser lido aos poucos.

E também é fácil por ser tão variado; é um mosaico onde as páginas dependem muito do interlocutor que a cada capítulo é entrevistado, e ainda tinha esse gosto adicional de ser um livro que tinha por base um trabalho de jornalista.

Adorei o livro!

Lá acabei por ir mesmo para a área de humanísticas e no fim esperava-me a Faculdade de Direito de Lisboa onde, por sorte, fui colega e me tornei amigo do Pedro Baptista-Bastos, filho do mítico jornalista.

 

Numa noite de (muitos) copos nos tempos da faculdade faltava-nos o Pedro BB; tinha combinado ido ter connosco mas não apareceu.

E nós, às tantas, depois de muita cerveja entornada, decidimos que era uma excelente ideia ir buscá-lo.

Daquelas coisas parvas que se decidem às 4 da manhã quando achamos que todo o mundo está em perfeita sintonia connosco e nos compreende...

Eles moravam numas escadinhas em Alfama mas as casas tinham portas independentes. E nós, no estado em que estávamos, não só não sabíamos qual era a porta do filho como achávamos que não tinha mal nenhum estar a tocar à campainha porque o nosso motivo era nobre.

Tocámos, esperámos um pouco, e apareceu-nos à porta o pai Baptista Bastos de roupão – tínhamo-nos enganado na porta.

O senhor olhou para nós (com uma expressão de entusiasmo que vocês podem imaginar) e um de nós perguntou com a maior calma do mundo:

“- Boa noite, o Pedro está? É que tínhamos combinado com ele ir visitar uns alfarrabistas.”

Assim.

Sem mais nem menos.

Tínhamos combinado ir visitar uns alfarrabistas.

Às 4 da manhã...

O pobre senhor fez-nos o favor de não nos mandar à merda (e teria sido tão justo se o tivesse feito) e disse-nos condescendentemente que o Pedro era na porta ao lado.

Depois fartámo-nos de rir com a desculpa que tínhamos inventado mas acabámos por cair na real e perceber o disparate que estávamos a fazer.

Já não tocámos à porta do Pedro e fomos à nossa vida; no dia seguinte logo lhe atirámos à cara a indecência de se ter baldado.

 

A amizade com o Pedro durou estes vinte e tal anos e há de durar outros tantos.

Ao longo destes anos todos, várias vezes me apeteceu arranjar um encontro a 3 para que o pai BB me pudesse autografar um livro que ficasse para a posteridade e para eu lhe dar um abraço. Mas como tantas vezes nos acontece na vida, fui sempre adiando.

Até que agora se tornou tarde demais.

Gostava de o ter feito, de lhe ter dito que tinha adorado ler as suas entrevistas, que apreciava o sentido poético com que falava de Lisboa e que lhe admirava a combatividade que manteve até ao fim.

Agora já não consigo.

Mas consigo marcar uma noite de copos com o Pedro.

Ah! Isso consigo!!!

 

 

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publicado às 10:23

Joana_Vasconcelos-Bullying-2.jpg

O discurso do ódio faz-me sempre muita confusão.

E faz mais ainda quando é dirigido contra pessoas que, objectivamente, não interferem ou não prejudicam diretamente as nossas vidas – é o caso dos artistas.

Eu percebo que se deteste um político e se faça gala nisso porque ele mexe com as nossas opções e o nosso modo de vida. Em todo o mundo há quem deteste o Trump ou o Putin da mesma forma que há quem tenha detestado (ou ainda deteste) o Obama ou o Gorbachev.

Mas não percebo que se odeie um artista plástico ou um actor ou um músico cuja obra seria sempre tão fácil de ignorar, e deixar os sentimentos mais intensos e a indignação para combates que valham a pena.

Ainda por cima a sociedade costuma comportar-se em matilha – quando um ataca, surge logo uma turba de gente odiar e banquetear-se no fel.

Vem isto a propósito da mais recente onda de indignação contra a Joana Vasconcelos por causa da inauguração de uma obra sua no Santuário de Fátima.

É perfeitamente legítimo que não se goste da obra “Suspensão” e também é legítimo que não goste dela enquanto artista.

Mas algo completamente diferente é atacar uma pessoa por causa de uma característica pessoal (neste caso física) que nada tem a ver com a sua obra.

Pode não se gostar da obra da Joana Vasconcelos ou das opções políticas do António Costa ou das piadas do Eddie Murphy ou dos sketches do Monchique ou das trivelas do Quaresma ou dos quadros da Frida Kahlo.

Mas eles nunca poderão ser a gorda, o monhé, o preto, o paneleiro, o cigano ou a coxa com buço.

Isso não é ser crítico, é só ser uma besta, é só ser preconceituoso.

Não dá para achar indecente que o Trump tenha gozado com um jornalista deficiente e depois vir chamar publicamente gorda à Joana Vasconcelos.

Provavelmente as pessoas que enchem as redes sociais com ataques à “gorda” julgam-se incapazes de um ataque racista contra o Obama e nem chegam a perceber que estão no mesmíssimo patamar de incivilidade.

Aliás, muitos dos que se divertem a chamar gorda à Joana Vasconcelos ficariam provavelmente indignados se vissem um bando de miúdos a gozar com uma qualquer Joaninha Vasconcelos gorda de 8 ou 10 anos.

Acredito que muitos dos que se dedicam ao cyberbullying contra a Joana Vasconcelos ficam muito impressionados quando um caso de cyberbulling acaba mal e aparece nas notícias.

Julgar negativamente uma obra é um exercício de crítica mas atacar pessoalmente o artista é um exercício de violência gratuita.

É odiar a pessoa e não acrescentar nada.

É uma merda.

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publicado às 18:09

Fomos ver a exposição “Tutankamon – Tesouros do Egito” que desde Janeiro está no Pavilhão de Portugal em Lisboa.

É certo que valeu a pena – eu gostei e os meus filhos adoraram.

Mas ainda assim não consigo deixar de pensar em algumas coisas que vi e que me incomodam.

Muito.

 

A TRETA DOS “BILHETES FAMÍLIA

Já não tenho pachorra para os supostos “bilhetes de família” que na prática não o são. A verdade é que a minha família não podia entrar na exposição com o tal “bilhete de família”.

Se eu tivesse ido à exposição com 3 filhos de amigos meus (que não são família) podia entrar com o tal “bilhete família”; mas com os meus filhos não posso – são 4, já não dá.

Mesmo assim a existência do bilhete família vale a pena? Sim, é melhor do que nada.

A soma de 6 bilhetes avulsos custaria 54€ e com um “bilhete família” mais um bilhete individual para a 4ª filha pagámos 38€ - para este escalão de preços, 16€ é um bom desconto.

Mas esmagadora maioria das famílias tem 1 ou 2 filhos; não é seguramente a minha quarta filha que vai causar prejuízo ao organizador do evento.

 

(Nota: a próxima exposição que queremos muito ver é a “Cosmos Discovery” e nessa o “bilhete família” é realmente válido para toda a família. Uma família são os pais e os seus filhos – ponto!)

 

A FALTA DE BRIO E DE CUIDADO

Já que estamos a falar de dinheiro, acho natural que quem paga exija ter acesso a uma exposição bem montada, iluminada e contextualizada.

Os objetos em si eram bons – boas réplicas com toda a imponência para deixarem miúdos e graúdos de queixo caído.

E a forma como estava organizada era interessante porque partia da reprodução das várias ante câmaras para a sua decomposição por peças; permitia partir do quadro geral para o particular e um bom relacionamento com a localização original de cada uma das peças.

 

Mas o espólio foi (muito) maltratado pelo organizador.

 

A exposição começa com a exibição de um filme velho que, pela legendagem, parece ter sido feito há mais de 50 anos. O filme em si acrescenta valor e foi bom vê-lo; mas será que nestas últimas décadas não se fez mais nada ou não se podia apresentar material mais recente e apelativo?

Qualquer documentário normalíssimo, daqueles que passam no Canal História ou no National Geographic, é incomparavelmente melhor.

Uma exposição desta dimensão merecia que aquele filme fosse misturado com conteúdos mais modernos, a cores, com gráficos, reproduções 3D, e todas as ferramentas que se usam atualmente neste tipo de eventos.

Tutankhamon-1.jpg

Durante a exposição viam-se muitas peças sem nenhuma legenda ou contexto (aliás, para nos habituarmos desde o início, a exposição começa precisamente com umas fotos e uma estátua sem nenhuma placa indicativa).

Muitos dos placards eram de difícil leitura e faziam reflexo com a iluminação o que obrigava os visitantes a mudar de ângulo várias vezes para ler 4 ou 5 linhas de texto.

Chegámos a encontrar uma placa com um erro ortográfico e algumas das traduções do Inglês para Português pareciam ter sido feitas por uma criança de 10 anos (ou então pelo tradutor do Google) com erros na construção das frases.

Tutankhamon-2.jpg

Mau, muito mau.

E mesmo nas peças que estavam identificadas faltava muitas vezes a explicação da sua utilidade – faltava contexto.

Até as minhas filhas de 11 anos se queixavam da falta de informação.

 

Não sei se é absoluto amadorismo, se é mesmo falta de brio e de vontade, se é só especulação com a magia do Antigo Egipto.

Se calhar pensaram que o mundo dos Faraós já é tão apelativo que bastava chegar lá, montar a exposição sem cuidados especiais, espalhar peças em vitrines, passar um vídeo qualquer, fazer uma boa promoção nos media e já está.

Eles pagam e não se queixam.

Se calhar o promotor apostou no triste provérbio “para quem é, bacalhau basta”.

E se calhar saiu-se bem – talvez a exposição tenha sido um êxito de bilheteira e ele tenha ganho bom dinheiro com o evento (espero sinceramente que sim).

Mas muitas vezes não é por se fazerem as coisas bem feitas que isso custa mais dinheiro.

A civilização egípcia, os arqueólogos que fizeram aquelas descobertas e o público de Lisboa mereciam mais.

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publicado às 19:00

Há uns anos atrás, uma miúda não terá sido vacinada contra o sarampo por causa de uma “reação alérgica grave” que teve na altura.

Já esta semana, a mesma miúda foi internada no Hospital de Cascais por causa de uma mononucleose - uma doença frequente (atinge 50% das crianças até 5 anos) e geralmente sem consequências.

Durante o internamento em Cascais terá estado próximo de um bebé de 13 meses que também não estava vacinado contra o sarampo por causa de um atraso devido a “razões clínicas”.

Aparentemente, e apesar das opiniões que os pais possam ter sobre o assunto, em nenhum destes casos a não-vacinação terá ocorrido por mero capricho dos pais.

A merda é que a desgraçada da miúda, agora com 17 anos, morreu hoje.

Apesar daquilo que li no Público (e que aqui resumi) alguns meios de comunicação social têm divulgado notícias onde os pais são acusados de negligência e de não ter vacinado a criança por mera opção familiar – um capricho, leia-se.

E depois disso, já se sabe, abriu-se a torneira do fel e escorre ódio e ácido pelas paredes da net.

 

A primeira questão que se me levanta é a da obrigatoriedade (ou não) da vacinação.

Como a vacinação não é obrigatória, não-vacinar as crianças não é crime.

E se o legislador achar que faz sentido tornar a vacinação obrigatória, pois que o faça para clarificar a situação – a mim parece-me perfeitamente aceitável obrigar as crianças a seguirem o plano nacional de vacinação.

Todas as crianças têm que frequentar a escolaridade obrigatória e na altura das inscrições é sempre pedido o boletim de vacinas – será muito fácil ao Estado impor e fiscalizar essa obrigatoriedade.

 

Mas se é necessário clarificar leis e comportamentos e sensibilizar as pessoas e as comunidades, quando se chega à morte de uma miúda de 17 anos tudo isso passa para segundo plano.

 

Aquilo que me enoja neste momento é o ódio que está a ser descarregado contra uns pais que estão a viver a maior tragédia das suas vidas.

Se a jovem falhou a vacinação por opção dos pais ou por razões médicas, de pouco me importa neste momento; haverá seguramente um momento em que se poderão discutir responsabilidades e os pais terão que viver o resto das suas vidas com o peso daquilo que lhes aconteceu.

 

Nós adoramos odiar o ódio dos outros.

Mas agora que fomos chamados a ter compaixão, preferimos jorrar ódio e descarregar culpa sobre os que estão em maior sofrimento.

Meio país diverte-se a destilar ódio contra uma mãe e um pai que acabaram de perder a sua filha.

É grotesco.

É apenas grotesco.

O ódio mata (muito mais) do que o sarampo...

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publicado às 14:35

Manaças.jpg

De vez em quando a vida surpreende-nos com as suas voltas; às vezes parece que a história é um fenómeno circular. E ainda bem...

Há uns dias recebi um e-mail do treinador de ginástica do Zé e reparei que a mensagem ia com conhecimento a um tal de José Carlos Manaças.

Ora este nome é um daqueles que não se esquece: foi o meu treinador de ginástica precisamente quando eu tinha (mais ou menos) a idade do Zé.

E quando eu era miúdo, naquele pequeno clube de bairro, ele já era um mito vivo porque para além de ser um treinador exigente, daqueles que nos molda, também era treinador no Sporting, estava ligado às selecções, ao Hóquei, aparecia na TV e por aí fora.

Para os miúdos do pequeno clube do bairro, o Manaças era um ídolo.

 

Numa das últimas vezes que fui buscar o Zé ao ginásio, combinei com o treinador dele ir fazer uma visita ao gabinete do Manaças e assim nasceu esta foto com 4 gerações de ginastas.

O José Carlos Manaças (que entre outras coisas é hoje o coordenador das modalidades olímpicas da Federação Portuguesa de Ginástica)

Eu (que nos meus tempos de miúdo fui aluno do Manaças e adorava os trampolins);

O Simão Almeida (que para além de treinador é campeão nacional por equipas de ginástica artística);

O Zé (que agora começou o seu percurso na ginástica artística).

 

O Zé fará da sua vida o que quiser mas nota-se que está a adorar esta experiência.

E eu, como pai, acho que lhe está a fazer muitíssimo bem.

 

Mas o mais divertido desta foto foi reencontrar o meu antigo professor e sentir que o meu filho está em tão boas mãos.

Às vezes parece que a vida anda aos círculos e isso pode ser reconfortante.

 

P.S. E não é que os meus pais se deram ao trabalho de guardar o meu cartão de sócio do Vitória Clube de Lisboa?

Quase 40 anos depois, aqui está ele em todo o seu explendor :-)

Cartao_VCL--1.jpg

"- Ó pai, tu eras bué parecido com o Zé" - disseram as manas quando viram esta relíquia...

 

 

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publicado às 18:13


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