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Até há 2 dias atrás vi muita gente interessada em demitir a Ministra da Administração Interna e muita gente preocupada com o facto de haver quem a quisesse levar à demissão - gente ralada com a crispação que ela despertava, incomodada com as perguntas da imprensa, indignada com os pedidos de demissão, maçada com a pressão de que era alvo, etc.

E dá-me vontade de perguntar: das 3 palavras da frase “morreram cem pessoas”, qual é que ainda não perceberam?

Mas a verdade é que parece que não percebemos.

Falamos de 100 mortos como se fosse um incómodo, uma espécie de contratempo - como se fosse um engarrafamento em Agosto a caminho da praia ou um apagão quando estávamos a ver a Guerra dos Tronos.

O PS diz que não tem responsabilidades apesar de ser o actual governo e de ter sido governo durante décadas no passado; o PSD diz que não tem responsabilidades apesar de ter liderado o último governo e de ter sido governo durante décadas no passado.

Vejo gente a discutir se o discurso do PR prejudica a esquerda ou se certo jornalista é de direita, como se os mortos tivessem cor política.

Morreram 100 pessoas e nos posts e caixas de comentários dos nossos amigos há quem se entretenha com o debatezinho de merda entre esquerda e direita.

E foi aí que percebi como de facto o interior do País está abandonado.

Morreram 100 pessoas, destruíram-se dezenas de milhares de vidas e nós estamos a discutir minudências.

 

O interior não foi só abandonado pelo poder político, foi abandonado por nós.

A primeira geração que migrou para o Litoral ainda foi mantendo alguma proximidade com aqueles lugares, a segunda geração talvez lá tenha ido brincar nas férias de verão e mantém alguma relação afectiva, mas a terceira geração já nem sabe onde ficam nem quer saber.

No fundo foi como se esses sítios tivessem morrido para a maior parte de nós.

E é por isso que estas 100 mortes, ocorridas muitas delas nesses sítios que para nós não existem, não despertem assim tanta urgência e permitem que o status quo do poder político se mantenha.

Morreram 100 pessoas, é certo, mas não eram propriamente pessoas como "nós".

Se um maluco qualquer se tivesse feito explodir no Chiado matando 10 ou 20 pessoas a nossa indignação colectiva seria provavelmente maior.

Mas não... eram só 100 pessoas, muitas delas idosas e quase sozinhas a viverem em lugares recônditos com nomes de terras que nos dão vontade de rir e que nem sabíamos que existiam.

O interior desertificou-se mas nós não o abandonámos apenas fisicamente; abandonámo-lo afectivamente e deixámos aquelas pessoas para trás.

Tornámo-nos tão urbanos que nos tornámos insensíveis a tudo o que não é o nosso modo de vida urbano.

A Dona Alzira que morreu não ia a discotecas à beira Tejo e o Sr. Joaquim que perdeu a quinta e o trator não ia a jantares gourmet em restaurantes da moda.

Também para que raio queria ele um trator? Nós aqui em Lisboa nunca precisámos de trator...

Ardeu uma serração e ficaram umas centenas de pessoas desempregadas?

Para nós não há problema porque as prateleiras do IKEA estão sempre cheias.

Ardeu um aviário com os animais lá dentro e esfumaram-se os empregos daquelas pessoas?

Paciência; se calhar há quem pense que os frangos nascem em embalagens de plástico já sem penas nem miudezas, e aqueles trabalhadores não são gente para ir ao Web Summit.

Desligámo-nos do nosso País e ele deixou de nos pertencer.

Morreram 100 pessoas em terras onde provavelmente nunca fomos, e havia gente preocupada com a chatice e as consequências que isso acarreta para quem estava no Terreiro do Paço ou em São Bento.

Uns queriam manter a Ministra para mostrar a solidez do governo, outros queriam provocar a demissão para abrir uma potencial brecha de fragilidade no governo.

Todos os partidos têm a sua agenda particular mas sabemos que 45% da população portuguesa vive nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

E se entretanto morreram 100 pessoas, eu sinto que de alguma forma todos nós as abandonámos também.

É claro que o poder político as abandonou há décadas; mas o poder político só as abandonou porque sabe que aquelas pessoas e aqueles lugares foram abandonados por nós e deixaram de interessar à maioria.

Criámos uma distância tremenda entre “nós” e “eles”, e temo que essa distância nos pode vir a matar enquanto comunidade.

Mas é claro que ainda vamos bem a tempo de nos voltarmos a apaixonar pelo nosso País, pelos seus lugares, pelas suas gentes e pela sua diversidade.

Parecendo que não, já cá andamos há quase 900 anos...

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publicado às 23:59

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O Pinhal de Leiria deixou de existir.

Não me ocorreria metáfora mais grotesca para descrever este ano e a falência das nossas instituições.

Para os outros incêndios iam surgindo sempre explicações: donos negligentes, matas por limpar, território desordenado, interior desertificado, falta de cadastro florestal, micro propriedades , hectares com donos desconhecidos, donos que nem sabem que são proprietários florestais, condições meteorológicas adversas, acessos muito difíceis, etc.

E nós vamos assimilando essas justificações – elas fazem sentido.

Mas agora o Pinhal de Leiria deixou de existir.

O Pinhal de Leiria era muito mais do que um conjunto de árvores; aquilo não era uma mata, não era uma área florestal – era um monumento histórico, era património nacional.

Um projeto nacional com 700 anos, o primeiro e mais ambicioso projeto ecológico da nossa História: no século XIII foi mandado plantar um pinhal com o objectivo de travar o avanço das dunas, proteger a cidade de Leiria e os seus campos agrícolas. Esta ideia, visionária e revolucionária do séc. XIII, morreu ontem.

E não podia.

Eu sempre estive (mais ou menos) descansado em relação à segurança do Pinhal de Leiria.

Sabemos que o dono é o Estado, o dono tem meios ilimitados para o proteger, a região é habitada, não está abandonada nem desordenada, os acessos são bons, a zona é plana, enfim... era impossível que o Estado deixasse arder o Pinhal de Leiria.

Até ontem.

E é por isso que o fim anunciado do Pinhal de Leiria é tão grave.

Quando há um incendio em Mação ou Oleiros, é o Pais que arde.

Mas quando arde o Pinhal de Leiria, é o Estado que arde.

Já nem é uma questão de culpar ou demitir.

Ontem ardeu o Estado Português.

Ardeu o Governo e a Presidência, ardeu o Tribunal Constitucional e a Assembleia da República – o Estado Português deixou oficialmente de funcionar como se tivesse sido suspenso.

Ligamos a TV, vemos as notícias e parece que a realidade é virtual como se estivéssemos a ver uma série de ficção com imagens de um qualquer país em guerra.

Aquilo (isto) já não parece ser um País a sério.

Ontem deflagraram 523 incêndios. Como dizia um antigo Primeiro Ministro, é fazer as contas: são mais de 20 incêndios por hora - um novo incêndio a cada 3 minutos.

É claro que não há forma de combater uma monstruosidade destas; é irracional e insano. Não estou a desculpabilizar ninguém, longe disso, mas não sei se haverá algum País no mundo capaz de combater eficazmente um novo fogo florestal a cada 3 minutos.

E isso só reforça a ideia de descontrolo; parece que o Estado deixou de existir e estamos por nossa conta, cada um por si.

Ontem ardeu o Pinhal de Leiria.

Que é como quem diz, ontem ardeu o Estado Português.

E eu acho que o Estado Português nem sequer deu conta disso...

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publicado às 23:30

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VAMOS AJUDAR?!?

A Unicef só nos escreve muito de vez em quando.

Pelo Natal, a agradecer o apoio prestado e a pedir para o renovar, ou quando há merda da grande.

Tipo... merda tão grande que nem uma organização do tamanho da Unicef/ONU consegue reunir os meios necessários para acudir a uma emergência.

Em Myanmar existe uma comunidade, os rohingya, que não possui direitos de cidadania: estão impedidos de viajar sem autorização oficial, impedidos de trabalhar em instituições públicas ou privadas, impedidos de possuir terras e impedidos de aceder ao sistema de educação.

Sendo alvo de perseguições desde há décadas, esta comunidade começou a ser alvo de uma operação de limpeza étnica sistemática a partir de 2013.

Diz a carta da Unicef:

“A violência contra este povo empobrecido e perseguido há anos intensificou-se enormemente nas últimas semanas. Desde 25 de Agosto mais de 410.000 rohingyas, dos quais 260.000 são crianças, atravessaram a fronteira com a roupa que tinham no corpo.

Contam histórias horríveis de rapto, de morte, de casas incendiadas.

E o êxodo continua com novas chegadas todos os dias ao Bangladesh.

A maioria das crianças chega só com as mães, pois os pais ou estão desaparecidos, foram mortos ou ficaram em Myanmar, mas algumas chegam sozinhas. Para além da dor e do trauma que sentem neste momento, estas crianças estão expostas a doenças, fome, exploração, deixando-as num enorme estado de vulnerabilidade.”

 

Podíamos abrir um debate sobre responsabilidades e culpas, questões políticas, religiosas e étnicas, mas este não é manifestamente o local (nem o momento).

Neste momento há centenas de milhares de crianças num estado desesperado e nós até nos podemos queixar da inércia da chamada “comunidade internacional”.

Acontece que nós também somos a tal “comunidade internacional”.

Para que a comunidade internacional seja algo de que nos possamos orgulhar, podemos dar um primeiro passo: ajudar.

Façamos a nossa parte antes de nos queixarmos das falhas dos outros.

Todos temos um cartão multibanco e todos podemos contribuir consoante as nossas possibilidades.

Todos os donativos ajudam mesmo os que possam parecer insignificantes; a título de exemplo, se 84 pessoas oferecerem um euro (1€) a Unicef consegue colocar no terreno mais 20.000 pastilhas de purificação de água.

Por outras palavras, todos os euros ajudam a salvar vidas.

Em vez de nos queixarmos de que o telejornal só dá desgraças, vamos ajudar um bocadinho a minorar esta tragédia.

Vamos ser um bocadinho mais cidadãos e mais solidários – vão ver que depois de ajudar se sentem melhor.

Com sorte até vão querer fazer disso um hábito.

VAMOS AJUDAR?!?

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publicado às 18:28

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No final dos anos ‘80 o Miguel Esteves Cardoso foi convidado para um debate na TV na sua qualidade de cabeça de lista do PPM ao Parlamento Europeu.

Mas o debate tinha uma hierarquia: num dia iam os 4 candidatos dos partidos com representação parlamentar, e num outro dia ia uma turba de não-sei-quantos candidatos dos outros partidos todos.

O MEC não achou a situação aceitável à luz do princípio da igualdade no tratamento das candidaturas a que as TV's estavam obrigadas, e declinou o convite.

Escreveu um comunicado que foi lido pelo moderador do debate dos chamados pequenos partidos, que lamentou a sua ausência e o facto de o MEC não ter ido pessoalmente ao programa de TV esclarecer a sua posição (mesmo que depois abandonasse do debate).

A sua decisão não era fácil porque faltar ao programa era perder uma oportunidade importante para dar visibilidade à sua própria candidatura, mas o MEC não queria ir ao debate para dizer mal dos moldes em que se desenrolava o próprio debate.

Para ele era acima de tudo uma questão de educação: - não se vai jantar a casa de uma pessoa para dizer mal do bife – confidenciou ele mais tarde a um grupo onde eu me encontrava.

 

E eu lembro-me demasiadas vezes deste episódio – recordo-o sempre que vejo as páginas de facebook de amigos serem minadas por gente maldizente que comenta com violência ou se envolve em discussões iradas com o autor ou com outros comentadores.

Já não nos bastavam as caixas de comentário dos jornais (que por higiene e pudor não leio) ainda temos que assistir por vezes à transformação de páginas pessoais de amigos em verdadeiros “fóruns” de pugilato e verborreia.

Eu sou alérgico à unicidade e ao unanimismo, entenda-se.

Gosto de discussões acaloradas, mas quando se mantém a urbanidade e existe evidente intimidade entre as pessoas - entre verdadeiros amigos vale (quase) tudo e poucas coisas batem em entusiasmo uma boa discussão entre amigos.

Mas há muita gente que não conhece os limites da razoabilidade (que reconheço ser um conceito por demais subjetivo), nem da boa educação, nem percebe os limites da (falta de) intimidade.

Gosto mais de me envolver numa discussão à mesa do café do que numa caixa de comentários do facebook, e muito menos na página de outra pessoa.

Quando leio alguma coisa e me apetece logo comentar, esforço-me por filtrar o meu comentário à luz das 3 perguntas clássicas: - É verdade? - É necessário? - É amável?

Sei que nem sempre consigo, mas esforço-me por filtrar e muitas vezes acabo por engolir em seco e passar à frente.

Uma página pessoal é isso mesmo; a página de alguém – é a casa virtual de uma pessoa.

Não se vai lá a casa para dizer mal do bife...

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publicado às 00:42

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Eu tento ser militantemente do contra.

E como fã irredutível Monty Python, juro que tentei ficar do lado do Terry Gilliam no meio desta confusão toda.

Primeiro resisti à tentação de me indignar logo com as primeiras notícias incendiárias que falavam de um Convento de Cristo em Tomar “parcialmente destruído” (credo).

Depois esperei que surgissem mais notícias, imagens, justificações oficiais, enfim... mais fontes para poder saber melhor o que pensar sobre a polémica das filmagens em Tomar.

Ao fim de alguns dias a poeira foi assentando e o Convento de Cristo que tinha sido “parcialmente destruído” afinal parece que teve como danos (a fazer fé nas notícias mais recentes) 6 telhas partidas e 4 fragmentos de pedra danificados o que corresponde a 2.900€ de danos que a produtora do filme irá pagar.

 

Parece que não foi grave, ou pelo menos não terá sido tão grave quanto inicialmente se supunha.

Falso.

É grave, é mesmo muito grave.

 

Pessoalmente acho óptimo que se arrende património para fins culturais (ou outros) como estratégia para o divulgar e/ou ajudar a rentabilizar.

Ainda recentemente o Museu dos Coches foi utilizado durante o 1º Salão Internacional do Veículo Elétrico, Híbrido e da Mobilidade Inteligente , juntando no mesmo espaço os coches centenários e os veículos do futuro amigos do ambiente, sem colocar em risco físico o património existente – é um exemplo de uma boa ideia que promove o nosso património e assegura receitas extra para o museu em causa.

 

Mas aquilo que aconteceu em Tomar ultrapassa tudo aquilo que seria recomendável.

Em primeiro lugar, e reconhecendo a minha ignorância na matéria, não percebo como é que em 2017 é preciso fazer de facto uma fogueira de 20 metros para filmar uma fogueira de 20 metros – estava convencido que os efeitos especiais no cinema estavam um bocadinho mais avançados do que isso e se podiam simular factos e acontecimentos sem ter que os reprodizir à escala real - à partida o recurso a maquetes e a meios digitais permite isso com economia de custos e de riscos.

Permitir que se faça uma fogueira com 20 metros de altura (a altura de um prédio de 6 andares) dentro dos claustros do convento, alimentada por 20(!) botijas de gás é uma perfeita aberração.

De pouco me interessa que digam que estavam presentes representantes dos bombeiros e a proteção civil – se as botijas explodissem o que faria essa gente para além de falecer com estrondo?

De pouco me interessa que digam de que havia um seguro de 2,5 milhões de euros – se houvesse uma explosão a seguradora construía um Convento de Cristo novo, a estrear, pelo valor de uma moradia no Restelo? Com uma Janela do Capítulo em pladour?

 

De todas as explicações que li, a mais fofa (chamemos-lhe assim) vem da representante da produtora. Diz Pandora da Cunha Telles que o facto de o monumento aparecer no filme “contribuirá, esperamos, para incrementar o interesse em Portugal, trazer mais turistas ao país”.

A ver se entendo...

O filme chama-se “O homem que matou Dom Quixote” e a fogueira da polémica evoca (nas palavras do realizador) as festas populares de Las Fallas em Valência.

Portanto a senhora Pandora acha que as pessoas vão ver um filme sobre a mais importante personagem da literatura Espanhola onde há uma cena que evoca uma festa popular de uma cidade Espanhola e vão dizer: “- Ai pá, temos que ir a Portugal, caraças”  (e dizem isto nas suas línguas maternas).

Ó Pandora, ou distribuem um flyer com uma ficha técnica onde explicam a localização de todos os pontos de filmagem (e obrigam o público a lê-la), ou então provavelmente a exibição do filme vai contribuir tanto para a promoção de Portugal como da Nova Zelândia ou do Cazaquistão.

 

Agora a sério, ainda bem que tudo acabou sem danos irreparáveis.

Mas entre outros fins relevantes, eu também pago impostos para que o património seja preservado e salvaguardado, e para que as pessoas que sofrem de distúrbios mentais mais ou menos graves tenham o devido acompanhamento médico se for caso disso.

A verdade é que todas as reações oficiais até ao momento roçam o anedótico.

Bom, pelo menos nisso são dignas de um filme dos Monty Python.

 

 

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publicado às 23:17

Desta vez foi diferente; estranhamente diferente. 

Há cerca de um mês um comboio de autocarros cheios de civis foi atacado na Síria fazendo mais de 100 mortos entre os quais, pelo menos, 68 crianças.

Por cá não se falou muito no assunto - eu soube porque alguém partilhou um artigo do Independent.

As atrocidades da guerra da Síria tornaram-se demasiado frequentes e já não fazem cabeçalhos nem aberturas de telejornais.

E já se sabe que, naturalmente, são os ataques terroristas nas “nossas” cidades que provocam as maiores ondas de choque e indignação.

É natural - quando as vítimas são pessoas que têm modos de vida com os quais nos identificamos, sentimo-nos mais próximos; e quando os ataques ocorrem em sítios que conhecemos, onde temos amigos ou em ruas que já calcorreámos, sentimo-nos mais expostos.

Quando se ataca um autocarro com refugiados na Síria são “eles”, mas quando se ataca numa esplanada de Paris podíamos ser “nós”.

 

Mas ontem foi diferente, foi estranhamente diferente.

Ontem houve um atentado terrorista numa cidade inglesa, num concerto onde estavam milhares de pessoas, muitas delas jovens, e não senti o nosso mundo a abanar.

Ontem não vi milhares de pessoas a mudarem a foto de perfil, não vi nenhuma app  que de repente pusesse a Union Jack nas fotos, não vi nenhuma corrente JE SUIS  nem nenhuma torrente de posts indignados ou consternados.

Só umas notas avulsas, uma ou outra partilha de um artigo de jornal e pouco mais, rematados com um singelo #PrayForManchester.

Se querem que vos diga muito honestamente, acho que vi mais gente na minha feed a lamentar a morte do Roger Moore (parecendo que não, morreu com 90 anos) do que a lamentar as 22 vítimas mortais do atentado de Manchester.

E eu próprio me senti de alguma forma arrastado para uma espécie de onda de normalidade; até tenho o hábito de fazer uma foto de perfil ou de capa especial na minha página quando acontece uma aberração desta natureza mas desta vez não me senti compelido a fazê-lo.

No reino do facebook pareceu um dia normal...

Nem o facto de ser uma cidade com a importância de Manchester, a cidade do Tony Wilson, dos Joy Division/New Order, dos Smiths e do movimento MadChester, ou a cidade do Cantona e do Beckham e do Sir Alex Ferguson, ajudou a criar uma onda de solidariedade e consternação como as que vimos noutras ocasiões.

Será que se este atentado tivesse ocorrido há 3 ou 5 anos a reacção teria sido diferente?

Será que estamos a ficar indiferentes a tudo?

Só quando ao fim da tarde fui buscar as minhas filhas à ginástica é que o assunto veio à baila, por iniciativa delas - queriam saber notícias, detalhes, explicações...

 

Eu sei que existe uma corrente instalada que nos diz que o objectivo dos terroristas é criar medo e divisão na nossa sociedade e que se mostramos o nosso receio ou tristeza ou pavor estamos a entrar no jogo deles e a dar força à sua forma de luta.

Eu não quero entrar no jogo deles e, com a minha tristeza e compaixão, ajudar a alimentar a motivação dos terroristas.

Mas também não sei se esta apatia e indiferença perante as 22 pessoas assassinadas em Manchester é um caminho que, moralmente, me apeteça percorrer.

E não sei se esta aparente apatia, esta passividade perante um massacre, não nos mata também por dentro enquanto comunidade.

A História ensina-nos que indiferença também mata...

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publicado às 00:19

Esta semana fomos todos confrontados com a divulgação de um vídeo (por parte do Correio da Manhã) onde se vê uma jovem a ser agredida sexualmente num autocarro enquanto o resto dos passageiros se ri e incentiva o agressor.

Perante tamanha violência, confesso que me apeteceu comprar umas caixas de acendalhas e reservar o Terreiro do Paço para uns autos de fé onde caberiam o agressor, muitos dos passageiros bem como os responsáveis pelo pasquim.

Contive-me muito para não escrever sobre o assunto e ainda bem que o fiz – não há nada como conter o primeiro impulso incendiário e deixar assentar alguma poeira para depois conseguir refletir com um pouco mais de frieza (ou lucidez) sobre o assunto.

E como tantas vezes acontece quando me ponho a pensar nas coisas, acabo com muito mais dúvidas do que certezas.

 

As poucas certezas que tenho são as de que o agressor é uma besta e um predador, os amiguinhos não são melhores do que ele e o Correio da Manhã é um esgoto a céu aberto.

 

Ainda assim, há várias perversidades no meio disto tudo; vamos por partes...

 

Estou convencido que é o vídeo que faz a notícia. Sem vídeo não havia indignação e tudo se resumiria a um não-acontecimento ou a uma pequena nota de rodapé fazendo alusão a um alegado abuso, uma alegada vítima e um alegado agressor; seria uma pequeníssima notícia canibalizada pelo frenesim das demais notícias do dia.

Mas por causa da existência e publicação do vídeo, aquela agressão transformou-se na notícia do dia provocando ondas de choque e indignação, mas também de reflexão e de tomada de consciência do muito que temos que fazer se quisermos caminhar para uma sociedade que se pretende civilizada (o que é sempre benéfico).

Experimentem a googlar  “jovem violada” para verem quantas dezenas ou centenas de violações (bem mais graves) foram apenas notas-de-rodapé nos media sem terem gerado esta onda de reações...

Por outras palavras, o problema para mim pode nem estar tanto na divulgação do vídeo (no seu site o CM distorceu as imagens a ponto de ser impossível identificar a vítima) mas sim na forma como é feito e no órgão onde é feito.

Se um meio de comunicação social de referencia tivesse divulgado o vídeo com as imagens distorcidas e uma nota do conselho de redação a explicar que o faziam não pelo exibicionismo grotesco mas antes como forma de alerta contra todo e qualquer abuso sexual e para que se promova uma discussão sobre o nosso papel enquanto sociedade na luta contra este tipo de abusos, talvez o efeito não fosse tão perverso.

Mas ser o Correio da Manhã a fazê-lo com o teaser “VEJA O VÍDEO” muda tudo.

A perversidade é precisamente essa: a publicação por parte do CM é apenas um nojo, mas sem isso não estaríamos a falar na urgência de combater a violência sexual, o preconceito de género e a objetificação da mulher.

 

O drama da vítima é o mais importante no meio disto tudo e também não sei se esta onda de indignação (ou de solidariedade e compaixão pelo que lhe aconteceu) a ajuda muito.

O crime terá ocorrido há uns dias e, pelo que sabemos, não foi feita nenhuma queixa.

Mas a partir do momento em que outras organizações pegam neste caso concreto e procuram que as autoridades atuem, será que estão a agir de acordo com a vontade da vítima?

Até pode ser que a vítima não tenha tido inicialmente coragem para formalizar uma queixa e pode ser que esta onda de solidariedade lhe dê a força e o apoio de que precisa para o fazer.

Mas também pode acontecer que a vítima prefira tentar esquecer o que aconteceu (o que também seria legítimo) e se calhar estamos todos a meter-nos na vida dela e a tentar empurrá-la para um processo que ela pode não querer assumir.

Aparentemente a PJ está a tratar o caso como crime semi-público pelo que depende de queixa da vítima.

Mas se condicionarmos a vítima para avançar com um processo crime que a levasse a depor e a dar a cara publicamente, não estaremos a agredi-la novamente?

Não se estará a forçar a vítima a uma exposição acrescida e a uma nova humilhação que ela pode estar a tentar evitar a todo o custo?

Só a vítima o sabe e da vontade dela pouco sabemos o que torna tudo isto ainda mais perverso.

 

A última perversidade advém do abuso de linguagem a que assisti nalguns posts e comentários (legitimamente) indignados em que se falava abertamente de violação.

Não, meter a mão dentro das calças da vítima não é uma violação.

O mal têm definições e graduações para que saibamos do que se está a falar.

Acontece o mesmo com os crimes.

Aquilo que aconteceu será um acto de violência sexual, uma agressão sexual, uma humilhação sexual (não faltarão adjectivos) e o facto de ter sido filmado e divulgado só agrava a situação.

Mas chamar-lhe violação é menosprezar, ainda que involuntariamente, o drama e a violência de que foram vítimas todas as mulheres que foram de facto violadas.

E isto não tem a ver com pôr paninhos quentes ou diminuir a gravidade dos factos – é apenas trata-los com um mínimo de rigor.

Nós não damos nomes aos actos (ou aos crimes) só porque eles nos chocam.

Uma agressão física, por grotesca e violenta que fosse, não passava a ser homicídio só porque nos indigna muito.

Há uns tempos uma cineasta francesa realizou uma curta-metragem, seguramente bem intencionada e com o intuito de alertar consciências para o problema das violações dentro do casal; mas para tornar o seu grito de alerta mais dramático, acaba por colocar praticamente no mesmo plano moral e ético a cena de violação (e brutal espancamento) do filme Irreversível e uma cena de sexo entre um casal de namorados em que ela não está com muita vontade, começa por dizer que não mas acaba por aceder.

Ela querer explicar que também existe violação dentro do casamento (e é claro que existe); mas ao filmá-la daquela forma trata a violação como se fosse apenas um contratempo, uma chatice, uma queca que não estava a apetecer mas que se acaba por deixar acontecer.

E esta leviandade de desvalorizar a violação parte muitas vezes das próprias mulheres; têm tanta vontade de se revoltar (legitimamente) contra a proliferação de agressões sexuais que exageram na adjectivação para provocar o choque e acentuar a gravidade do fenómeno.

E isso é perverso.

 

Faz um bocado lembrar as pessoas que se chocam tanto com atropelos aos direitos humanos que perdem a noção da realidade e desatam a comparar tudo ao holocausto.

Não, a guerra na Síria não é o holocausto. É horrível ver crianças a morrer em directo na TV, mas aquela monstruosidade não é o holocausto.

Não, meter a mão dentro das cuecas de uma miúda e apalpá-la não é uma violação. É horrível ver uma miúda indefesa a ser humilhada e abusada com uns palhaços a filmarem e grunhirem de entusiasmo, mas aquilo não é uma violação.

 

Senão, quando acontece de facto uma violação, chamamos-lhe o quê?

Como é que exageramos? Que nome damos?

 

Para acabar recomendo este vídeo.

Só porque sim. É raro ver um violador e uma vítima a darem a cara.

É preciso ter muita coragem para assumir que se sofreu uma violência do tamanho da violação, mas também é preciso coragem (ainda mais rara) para assumir que todos temos um lado negro que pode vir à superfície.

Vale a pena...

 

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publicado às 00:24

Podia parecer mal este ser o único blog de Portugal e arredores a não fazer um post sobre o Salvador Sobral por isso, cá vai.

 

Nota prévia: eu não gosto de unanimismos e unicidades – tenho alergia, dá-me urticária.

Posto isto, e perante o enervante entusiasmo em relação ao novo formato do nosso Festival da Canção, tratei de não lhe ligar pevide.

Nem o facto de também participar a Márcia (e eu sou Marciano, acreditem) me levou a ligar a tv naquela noite.

 

Depois ganhou o Salvador Sobral e o entusiasmo em relação à canção vencedora tornou-se insuportável.

Por essa razão, e porque eu não sou de embirrar sem conhecimento de causa, fui ver que fenómeno era esse que estava a criar tão enervante unanimidade.

Como bom velho dos Marretas, lá fui saber quem era o cantor para o poder deitar abaixo com propósito e maneiras.

Então mas não é que o Salvador Sobral é aquele concorrente do Ídolos de há uns anos?

Aquele da única edição que eu segui e que até era o concorrente com quem eu mais simpatizava?

Ora bolas, não vou conseguir embirrar com ele.

Canta lindamente, tem (muito) bom gosto musical e tem “sou uma joia de moço” escrito na testa; olha-se para ele e simpatiza-se logo.

 

Bom, mas um marreta não desiste – de certeza que consigo malhar no autor da canção que toda a gente estava a adorar.

Ah! Ca porra. É a Luísa Sobral que é irmã dele e eu não sabia.

Que chatice... eu era incapaz de embirrar com ela. Adoro-a.

Por acaso só tenho um disco dela e só a vi ao vivo uma vez mas tenho um fraquinho muito sério pela Luísa Sobral.

Gosto de rigorosamente tudo nela.

Da voz, das canções, da imagem, da intervenção cívica... aquele arzinho de fada a cantar com a harpa é, para mim, absolutamente irresistível.

Não és tu Joanna Newsom, é ela...

 

Bom, mas se não consigo embirrar com o cantor nem com a compositora, ainda posso embirar com a canção.

Mesmo aquele duo pode ter um momento de desinspiração e, sendo o Festival da Canção, de certeza que a canção é manhosa.

Ehhh... Não!

Irra que a canção é belíssima e a letra é maravilhosa.

Como é que uma balada tão suave e apenas sussurrada consegue entrar no ouvido a ponto de eu a assobiar quando estou a pôr a loiça na máquina ao fim da primeira audição?!?!

Ó pá, acreditem que eu tentei manter-me à margem daquilo, fiz de conta que não sabia o que era, e quando fui ver fui munido de uma vontade inabalável de dizer mal e de deitar abaixo só para ser do contra.

A verdade é que não consegui

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Os manos Sobral não me deixaram ser marreta.

Só por causa disso fico a odiá-los um bocadinho...

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publicado às 20:00

Quando decidi que iria para humanísticas o meu pai estranhou.

Eu não era particularmente bom aluno a nenhuma disciplina e, não revelando nenhum gosto especial pelas ciências exatas, também não tinha um grande entusiasmo pelas ciências humanas.

Em miúdo tinha devorado livros; os de aventuras (dos 5 e dos 7), os proibidos para a idade (como o Drácula do Bram Stoker) e os dos adultos que lia para parecer crescido sem perceber patavina (como uma peça de teatro do Sartre ou um livro do Gorki).

Devorava livros, sobretudo nas férias.

Mas depois, por alguma razão, desinteressei-me dos livros e acabei por me limitar a escolher a área de estudos que não tinha matemática, indo também atrás do élan que a profissão de jornalista tinha na altura.

O meu pai, preocupado com a minha falta de hábitos de leitura, resolveu emprestar-me um livro que lhe parecia fácil a ver se eu retomava o gosto pelas letras:

As Palavras dos Outros do Baptista-Bastos.

O livro é fácil porque, sendo uma compilação de entrevistas, pode ser lido aos poucos.

E também é fácil por ser tão variado; é um mosaico onde as páginas dependem muito do interlocutor que a cada capítulo é entrevistado, e ainda tinha esse gosto adicional de ser um livro que tinha por base um trabalho de jornalista.

Adorei o livro!

Lá acabei por ir mesmo para a área de humanísticas e no fim esperava-me a Faculdade de Direito de Lisboa onde, por sorte, fui colega e me tornei amigo do Pedro Baptista-Bastos, filho do mítico jornalista.

 

Numa noite de (muitos) copos nos tempos da faculdade faltava-nos o Pedro BB; tinha combinado ido ter connosco mas não apareceu.

E nós, às tantas, depois de muita cerveja entornada, decidimos que era uma excelente ideia ir buscá-lo.

Daquelas coisas parvas que se decidem às 4 da manhã quando achamos que todo o mundo está em perfeita sintonia connosco e nos compreende...

Eles moravam numas escadinhas em Alfama mas as casas tinham portas independentes. E nós, no estado em que estávamos, não só não sabíamos qual era a porta do filho como achávamos que não tinha mal nenhum estar a tocar à campainha porque o nosso motivo era nobre.

Tocámos, esperámos um pouco, e apareceu-nos à porta o pai Baptista Bastos de roupão – tínhamo-nos enganado na porta.

O senhor olhou para nós (com uma expressão de entusiasmo que vocês podem imaginar) e um de nós perguntou com a maior calma do mundo:

“- Boa noite, o Pedro está? É que tínhamos combinado com ele ir visitar uns alfarrabistas.”

Assim.

Sem mais nem menos.

Tínhamos combinado ir visitar uns alfarrabistas.

Às 4 da manhã...

O pobre senhor fez-nos o favor de não nos mandar à merda (e teria sido tão justo se o tivesse feito) e disse-nos condescendentemente que o Pedro era na porta ao lado.

Depois fartámo-nos de rir com a desculpa que tínhamos inventado mas acabámos por cair na real e perceber o disparate que estávamos a fazer.

Já não tocámos à porta do Pedro e fomos à nossa vida; no dia seguinte logo lhe atirámos à cara a indecência de se ter baldado.

 

A amizade com o Pedro durou estes vinte e tal anos e há de durar outros tantos.

Ao longo destes anos todos, várias vezes me apeteceu arranjar um encontro a 3 para que o pai BB me pudesse autografar um livro que ficasse para a posteridade e para eu lhe dar um abraço. Mas como tantas vezes nos acontece na vida, fui sempre adiando.

Até que agora se tornou tarde demais.

Gostava de o ter feito, de lhe ter dito que tinha adorado ler as suas entrevistas, que apreciava o sentido poético com que falava de Lisboa e que lhe admirava a combatividade que manteve até ao fim.

Agora já não consigo.

Mas consigo marcar uma noite de copos com o Pedro.

Ah! Isso consigo!!!

 

 

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publicado às 10:23

Joana_Vasconcelos-Bullying-2.jpg

O discurso do ódio faz-me sempre muita confusão.

E faz mais ainda quando é dirigido contra pessoas que, objectivamente, não interferem ou não prejudicam diretamente as nossas vidas – é o caso dos artistas.

Eu percebo que se deteste um político e se faça gala nisso porque ele mexe com as nossas opções e o nosso modo de vida. Em todo o mundo há quem deteste o Trump ou o Putin da mesma forma que há quem tenha detestado (ou ainda deteste) o Obama ou o Gorbachev.

Mas não percebo que se odeie um artista plástico ou um actor ou um músico cuja obra seria sempre tão fácil de ignorar, e deixar os sentimentos mais intensos e a indignação para combates que valham a pena.

Ainda por cima a sociedade costuma comportar-se em matilha – quando um ataca, surge logo uma turba de gente odiar e banquetear-se no fel.

Vem isto a propósito da mais recente onda de indignação contra a Joana Vasconcelos por causa da inauguração de uma obra sua no Santuário de Fátima.

É perfeitamente legítimo que não se goste da obra “Suspensão” e também é legítimo que não goste dela enquanto artista.

Mas algo completamente diferente é atacar uma pessoa por causa de uma característica pessoal (neste caso física) que nada tem a ver com a sua obra.

Pode não se gostar da obra da Joana Vasconcelos ou das opções políticas do António Costa ou das piadas do Eddie Murphy ou dos sketches do Monchique ou das trivelas do Quaresma ou dos quadros da Frida Kahlo.

Mas eles nunca poderão ser a gorda, o monhé, o preto, o paneleiro, o cigano ou a coxa com buço.

Isso não é ser crítico, é só ser uma besta, é só ser preconceituoso.

Não dá para achar indecente que o Trump tenha gozado com um jornalista deficiente e depois vir chamar publicamente gorda à Joana Vasconcelos.

Provavelmente as pessoas que enchem as redes sociais com ataques à “gorda” julgam-se incapazes de um ataque racista contra o Obama e nem chegam a perceber que estão no mesmíssimo patamar de incivilidade.

Aliás, muitos dos que se divertem a chamar gorda à Joana Vasconcelos ficariam provavelmente indignados se vissem um bando de miúdos a gozar com uma qualquer Joaninha Vasconcelos gorda de 8 ou 10 anos.

Acredito que muitos dos que se dedicam ao cyberbullying contra a Joana Vasconcelos ficam muito impressionados quando um caso de cyberbulling acaba mal e aparece nas notícias.

Julgar negativamente uma obra é um exercício de crítica mas atacar pessoalmente o artista é um exercício de violência gratuita.

É odiar a pessoa e não acrescentar nada.

É uma merda.

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publicado às 18:09


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