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Quando foi cancelada a conferencia do Prof. Jaime Nogueira Pinto, na Universidade Nova, fiquei indignado.

Jaime Nogueira Pinto é um homem superiormente culto e inteligente e eu gosto sempre de o ouvir - mesmo quando discordo (o que geralmente acontece).

Pareceu-me inaceitável que um professor universitário fosse impedido de falar numa universidade, que é suposto ser um local aberto à discussão e ao debate de ideias.

O caso tinha tudo para ser emblemático quanto ao espírito intolerante de uma certa esquerda radicalizada (representada pelos estudantes reunidos em RGA) e o professor assumidamente conotado com o salazarismo.

 

Mas depois começaram a chegar-nos algumas explicações, tanto do reitor como dos estudantes, que desde logo afirmaram que não existia nenhum problema com o orador convidado mas sim com a entidade organizadora do evento – uma associação chamada “Nova Portugalidade”.

Fui tentar perceber que problema poderia haver com esses organizadores

São uns moços que aparentemente se dedicam ao estudo da História e a partilhar as suas opiniões sobre aquilo que estudam – até aqui nada de estranho, até me pareceu louvável.

A História não é uma ciência exacta e permite várias análises sobre o mesmo acontecimento. Para mim que nunca gostei da unicidade, até acho refrescante que apareçam uns tipos conservadores educados e inteligentes a mostrar visões diferentes do mundo. Nem que seja para ouvir, pensar e, no fim, discordar – ganhamos sempre quando lemos ideias diferentes da nossa...

Não são as publicações onde se enaltece Trump ou Mariane Le Pen que me perturbam.

Nem a foto do presidente da associação de joelhos na campa de Salazar – é um garoto de 22 anos e os garotos são frequentemente parvos quando se armam em pavões para dar nas vistas e impressionar os outros.

 

O problema (para mim) acontece quando dou de caras com um post onde a Nova Portugalidade defende que essa coisa da inquisição foi muito empolada, que por exemplo em Goa até foram condenadas à fogueira “apenas 57 indivíduos” em 173 anos, e que o que há é “uma campanha difamatória que se tem empreendido contra Portugal e a sua obra imperial”.

Para os moços da Nova Portugalidade, a Inquisição “foi alvo constante da imaginação - isto é, da deturpação aberta, comprometida e malsã - da propaganda protestante”; no fundo a Inquisição é uma vítima: “o Santo Ofício fez-se alvo preferencial dos filósofos das Luzes”.

Quando se tenta relativizar algo como a Inquisição, chegamos ao patamar da absoluta insanidade e acabou-se a conversa.

 

Eu percebo que aquando do cancelamento da conferencia havia pouca informação sobre os acontecimentos. Eu próprio escrevi nessa noite, na minha página no facebook, “A merda do PREC que nunca mais acaba!”.

Mas não percebo que, passada uma semana e depois de se ouvirem as explicações e se saber quem são os organizadores, ainda haja comentadores indignados com o cancelamento do evento.

 

Felizmente não faltam sítios onde o Prof. Jaime Nogueira Pinto pode palestrar (desde logo a sede da Associação 25 de Abril) em eventos promovidos por gente menos malsã – digo eu.

 

Quanto aos que querem continuar a brincar à indignação e a considerar o cancelamento da conferência um caso inaceitável de censura, proponho um jogo: fazemos um auto-de fé e queimamos vivas essas pessoas.

Se no fim do auto de fé elas disserem que não foi assim tão desconfortável e que o Voltaire é que era um exagerado, então avançamos com o evento nos moldes inicialmente previstos.

Boa?

 

P.S. Eu sei que o Prof. Jaime Nogueira Pinto é uma figura conhecida e reconhecível. Mas basta olhar para o cartaz de promoção da conferência para se constactar o destaque dado ao nome da associação que organiza o evento e o destaque dado ao nome do orador (que nem sequer lá está).
Convenhamos que soa um bocadinho mais a propaganda do que a ciência...

 

Nova_Portugalidade-JNP.jpg

 

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publicado às 19:35


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