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Quando decidi que iria para humanísticas o meu pai estranhou.

Eu não era particularmente bom aluno a nenhuma disciplina e, não revelando nenhum gosto especial pelas ciências exatas, também não tinha um grande entusiasmo pelas ciências humanas.

Em miúdo tinha devorado livros; os de aventuras (dos 5 e dos 7), os proibidos para a idade (como o Drácula do Bram Stoker) e os dos adultos que lia para parecer crescido sem perceber patavina (como uma peça de teatro do Sartre ou um livro do Gorki).

Devorava livros, sobretudo nas férias.

Mas depois, por alguma razão, desinteressei-me dos livros e acabei por me limitar a escolher a área de estudos que não tinha matemática, indo também atrás do élan que a profissão de jornalista tinha na altura.

O meu pai, preocupado com a minha falta de hábitos de leitura, resolveu emprestar-me um livro que lhe parecia fácil a ver se eu retomava o gosto pelas letras:

As Palavras dos Outros do Baptista-Bastos.

O livro é fácil porque, sendo uma compilação de entrevistas, pode ser lido aos poucos.

E também é fácil por ser tão variado; é um mosaico onde as páginas dependem muito do interlocutor que a cada capítulo é entrevistado, e ainda tinha esse gosto adicional de ser um livro que tinha por base um trabalho de jornalista.

Adorei o livro!

Lá acabei por ir mesmo para a área de humanísticas e no fim esperava-me a Faculdade de Direito de Lisboa onde, por sorte, fui colega e me tornei amigo do Pedro Baptista-Bastos, filho do mítico jornalista.

 

Numa noite de (muitos) copos nos tempos da faculdade faltava-nos o Pedro BB; tinha combinado ido ter connosco mas não apareceu.

E nós, às tantas, depois de muita cerveja entornada, decidimos que era uma excelente ideia ir buscá-lo.

Daquelas coisas parvas que se decidem às 4 da manhã quando achamos que todo o mundo está em perfeita sintonia connosco e nos compreende...

Eles moravam numas escadinhas em Alfama mas as casas tinham portas independentes. E nós, no estado em que estávamos, não só não sabíamos qual era a porta do filho como achávamos que não tinha mal nenhum estar a tocar à campainha porque o nosso motivo era nobre.

Tocámos, esperámos um pouco, e apareceu-nos à porta o pai Baptista Bastos de roupão – tínhamo-nos enganado na porta.

O senhor olhou para nós (com uma expressão de entusiasmo que vocês podem imaginar) e um de nós perguntou com a maior calma do mundo:

“- Boa noite, o Pedro está? É que tínhamos combinado com ele ir visitar uns alfarrabistas.”

Assim.

Sem mais nem menos.

Tínhamos combinado ir visitar uns alfarrabistas.

Às 4 da manhã...

O pobre senhor fez-nos o favor de não nos mandar à merda (e teria sido tão justo se o tivesse feito) e disse-nos condescendentemente que o Pedro era na porta ao lado.

Depois fartámo-nos de rir com a desculpa que tínhamos inventado mas acabámos por cair na real e perceber o disparate que estávamos a fazer.

Já não tocámos à porta do Pedro e fomos à nossa vida; no dia seguinte logo lhe atirámos à cara a indecência de se ter baldado.

 

A amizade com o Pedro durou estes vinte e tal anos e há de durar outros tantos.

Ao longo destes anos todos, várias vezes me apeteceu arranjar um encontro a 3 para que o pai BB me pudesse autografar um livro que ficasse para a posteridade e para eu lhe dar um abraço. Mas como tantas vezes nos acontece na vida, fui sempre adiando.

Até que agora se tornou tarde demais.

Gostava de o ter feito, de lhe ter dito que tinha adorado ler as suas entrevistas, que apreciava o sentido poético com que falava de Lisboa e que lhe admirava a combatividade que manteve até ao fim.

Agora já não consigo.

Mas consigo marcar uma noite de copos com o Pedro.

Ah! Isso consigo!!!

 

 

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publicado às 10:23



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