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Se tivermos sorte com as coincidências, o mundo pode ser um sítio maravilhoso.

 

Capítulo 1

Conheci o meu amigo Guilherme Dray num jogo de futebol no 7º ano do Liceu Camões, teríamos nós uns 12 ou 13 anos.

Mais tarde, já no 10º ano, estávamos em turmas diferentes mas mais próximos por sermos ambos de humanísticas.

E quando no 12º ano caímos na mesma turma, acabámos por ficar amigos a sério.

Copos, concertos, estudo, fins de semana, essas coisas todas...

Depois fomos ambos para Direito na FDL com uma diferença: ele era bom aluno (sempre foi) e eu não sabia o que lá estava a fazer (nunca soube).

Mas a amizade continuou com mais copos, mais fins de semana na casa dele na Ericeira, mais amigos que se foram fazendo pelo caminho, etc.

Depois a vida foi-nos dando as suas voltas.

Ele acabou o curso com distinção, começou a dar aulas na Faculdade, e eu fui-me perdendo pelo caminho...

Começámos ambos a trabalhar e isso afasta sempre um pouco as pessoas, já se sabe, mas continuámos a participar nos momentos importantes da vida um do outro.

Uma ida a Coimbra para o visitar no hospital quando estava internado por causa de uma infecção o ia deitando (mesmo) abaixo, o regresso à casa da Ericeira para o casamento dele, a morte do pai, essas coisas boas e más que juntam e unem a família...

Mas a vida vai-nos separando, não há nada a fazer.

Não o vejo há (muitos) anos – a última vez foi numa ocasião em que almoçámos juntos, já ele era Chefe de Gabinete de um ministro qualquer.

 

Capítulo 2

Há uns meses eu estava à espera dos meus filhos no átrio do GCP e, para ocupar o tempo, fui ver as fotos dos campeões que estão no Hall of Fame do Clube. De repente vejo um “António Dray” e pensei logo: com este apelido tem que ser filho do Gui.

Mandei um SMS ao meu velho amigo sem esperança nenhuma de obter resposta porque de certeza que aquele número estava mais do que desatualizado.

Mas de repente o telefone apita e afinal o nº ainda era o mesmo.

Disse-me que se procurasse bem até encontrava outro Dray porque ele tem 2 filhos campeões nacionais de ginástica – fui ver e lá encontrei o outro.

E soube-me bem ter o meu amigo do outro lado do SMS...

 

Capítulo 3

Esta semana o GCP convidou os pais a participarem numa aula dos filhos para comemorar o Dia do Pai, mas sem os avisarmos. E eu fui fazer a surpresa ao meu Zé que tem 7 anos.

Enquanto fazíamos a aula juntos, passou um miúdo mais velho que o Zé cumprimentou muito contente com um entusiasmado “- Olá António”.

Eu olhei para o rapaz, que deve ter uns 15 ou 16 anos, e pareceu-me reconhecer o sorriso da foto do campeão que tinha visto uns meses antes no Hall of Fame; perguntei-lhe se ele não era o António Dray e ele disse-me que sim.

Expliquei-lhe que era amigo do pai desde os tempos do liceu e pedi para lhe mandar um abraço.

Quando a nossa aula acabou o meu Zé foi despedir-se do António e eu fui com ele.

Foi o único dos “crescidos” que o Zé cumprimentou e de quem se despediu, e eu até estranhei que se falassem porque para aquelas idades, 8 ou 9 anos é uma diferença abissal (um miúdo de 7 anos não tem nada em comum com um de 15 e, sobretudo, os de 15 não têm paciência para os de 7).

 

Epílogo

À noite recebi uma mensagem por WhatsApp – era o Gui a dizer que está a dar aulas em Washington, que tinha estado a falar com o filho António por Skype e que o meu abraço tinha lá chegado.

Parece que o António é uma joia de moço e, ao contrário dos outros adolescentes, gosta de falar e de ajudar os miúdos mais novos - por essa razão o meu Zé terá atinado e gosta dele.

Para um miúdo de 7 anos como o meu Zé, ter um dos crescidos a cumprimentá-lo ou a dar um conselho sobre as argolas ou um pino faz uma diferença tremenda – é um dos momentos do dia dele e sente-se especial.

Mas o que eu achei maravilhoso é que sem nenhum deles saber, o filho do meu amigo Gui tocou na vida do meu filho Zé.

Em 2017 um Dray e um Caeiro cumprimentaram-se e ficaram um bocadinho amigos sem sonharem que, 35 anos antes, os seus pais tinham feito a mesma coisa.

Ando tão enternecido com isto que não resisti a partilhar a história apesar de ser tão pessoal.

É como vos digo... se tivermos sorte com as coincidências, o mundo pode ser um sítio maravilhoso.

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publicado às 14:07


10 comentários

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De Ana Barata a 24.03.2017 às 10:16

bonita história!
comoveu-me. Afinal os genes tão lá!
felicidades
ana barata
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De Fernando Caeiro a 27.03.2017 às 11:41

É, às vezes a genética é uma ciência exacta
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De teresa a 24.03.2017 às 10:27

sweet!
essa parte das amizades durarem sem nos esforçarmos por isso é mais ternurenta ainda!
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De Fernando Caeiro a 27.03.2017 às 11:41

Às vezes basta continuar a gostar
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De Ladys a 24.03.2017 às 12:48

Que história tão bonita :). Obrigada pela partilha. Marina
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De Fernando Caeiro a 27.03.2017 às 11:42

Obrigado. Eu nem costumo de gostar de escrever com detalhes pessoais (e nomes de outras pessoas) mas desta vez não resisti.
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De Maria Fernandes a 24.03.2017 às 16:57

Uma delicia! Os genes estão lá! Nada é por acaso!
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De Fernando Caeiro a 27.03.2017 às 11:43

Dá vontade de pensar que não é por acaso

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