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Markl-Cid

Este episódio que envolveu o José Cid e o Nuno Markl é particularmente representativo daquilo que se passa nas redes sociais, mas também do que se passa na sociedade desde sempre.

A saber: um bando de grunhos barulhentos podem dar a ideia de que são muita gente, mas há sempre uma maioria silenciosa de gente pacífica e recomendável.

É como ir a um estádio de futebol: a maioria vai ver um jogo e divertir-se, mas se uma minoria de hooligans provocar desacatos é isso que aparece nas notícias.

 

Recuperemos os factos: há 6 anos o Nuno Markl entrevistou o José Cid num canal de TV por cabo dedicado ao humor – o Canal Q.

Nesse programa o José Cid dispara umas bojardas sobre gente “medonha, feia e desdentada”, gente que nunca viu o mar mas vêm em excursões a Lisboa e se enfiam no Pavilhão Atlântico.

Diz ainda que existe boa música popular em Portugal, “com muitas nuances que vão do Algarve ao Minho e passa por Trás-os-Montes”.

Depois desse elogio ele diz: “eu às vezes digo na brincadeira que se devia construir uma Muralha da China em Trás-os-Montes para não deixarem passar alguma música que vem de lá”.

Foi isto, apenas isto.

 

Durante um programa de humor, num canal de humor do cabo, um convidado refere-se a alguma música que vem de uma região começando uma frase com “às vezes na brincadeira...” - mas mesmo assim um grunho qualquer que está em casa a ouvir resolve levar aquilo à letra e fazer-se de ofendido.

A José Cid passam a ser atribuídas ofensas aos transmontanos (quando ele não se referiu às pessoas mas sim a um género de música popular) e retiradas do contexto são tratadas como literais umas declarações que qualquer pessoa honesta percebe serem metafóricas.

Como nas redes sociais nem toda a gente se preocupa a verificar a origem e a veracidade do que lê, a mentira torna-se facilmente viral alimentada pelo fel de gente mal resolvida.

A partir daí nasce um movimento de indignação que, entre outras coisas, envolve ameaças à integridade física do músico e do apresentador do programa porque, imagine-se, se riu dos comentários alarves do José Cid.

Eu cheguei a ouvir uma senhora a defender, em direto na rádio, que ameaçar fisicamente o José Cid era um exercício de liberdade de expressão (foi na Prova Oral do Alvim na Antena 3).

Confesso que depois ouvir a gravação não encontro motivos para nenhum tipo de indignação.

Acho aliás que quando ele fala de Trás-os-Montes não se está a referir à região em concreto, está apenas a aludir a uma realidade distante. Disse “Trás-os-Montes” como podia ter dito “as Beiras”, da mesma forma que podia ter usado uma expressão idiomática do género “trás do sol posto” ou “cascos de rolha”. É disso que se trata: de uma imagem metafórica e não de uma afirmação concreta.

Acho que só alguém muuuuito literal se lembraria de achar MESMO que o José Cid defende a construção de uma muralha da China em Trás-os-Montes para não deixar passar alguma música.

A sério???

 

Mas adiante... aquilo que gostava de ressalvar é que, no fim de contas, a maioria silenciosa acabou por se sobrepor ao vandalismo.

Dei-me ao trabalho de ir visitar as páginas de facebook de ambos e é giro ver que durante os dias de pico da polémica, as suas páginas registaram... picos de adesão.

Gráfico Markl-Cid Facebook

Como é habitual, as pessoas de bem não aparecem nas notícias; durante aqueles dias os relatos das redes sociais só falavam de polémicas e ameaças.

Mas há uma verdade escondida por trás disto: nas páginas do Nuno Markl e do José Cid foram bem visíveis, em número de novos likes, as marcas da polémica.

Em relação à semana anterior a página do Markl teve mais 120% de novos seguidores e a do José Cid mais 400% de novos seguidores.

Em resumo, enquanto meia dúzia de hooligans infestavam o Facebook com ofensas e ameaças, milhares de cidadãos anónimos foram às páginas dos visados, na mesmíssima rede social, e mostraram-lhes o seu apreço.

Não é giro?

Pode não ser notícia, mas é giro.

 

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publicado às 18:30


6 comentários

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De Paulo a 06.06.2016 às 22:06

Opinião da JK Rowling num artigo de hoje do DN; "A minha experiência com as redes sociais diz-me que os idiotas serão sempre idiotas"
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De Fernando Caeiro a 07.06.2016 às 00:05

É verdade. E vão continuar a sê-lo, dentro e fora das redes sociais.
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De jose fontes a 07.06.2016 às 10:01

É verdade que houve exageros, mas mesmo o José Cid estando a comentar sobre música, essa música é feita por pessoas e essas são feias, desdentadas, etc.
As pessoas que foram fazer gosto nas páginas, são pessoas que pensam igualmente como o José Cid (sou fã do Markl e conheço algumas canções do José Cid).
Trás-os-Montes será sempre visto como a terrinha distante onde nada acontece e tudo está no século. passado (ou dois séculos atrás), mas nós vivemos bem com isso, mas como "quem não se sente ..."
Ainda este fim de semana tive a experiência de alguém que esteve na minha aldeia, a achou muito bonita e sossegada para passar uns dias e descansar, mas sem internet... e as nossa localidades distam pouco mais de 100 km, só que a outra fica no litoral.
Resumindo. Foi um momento mau do José Cid. O Markl tem piada porque goza com ele próprio, Não ofende ninguém. As coisas mudam quando se goza com as outras pessoas e, essas, podem não gostar e estão no seu direito.
Já agora, a minha aldeia tem internet, E boa!
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De Fernando Caeiro a 07.06.2016 às 12:59

Não sei se as pessoas que foram fazer "gosto" nas páginas deles são pessoas que pensam como o José Cid; são milhares de pessoas e eu não as conheço todas.
Acho que as pessoas se indignaram contra o excesso e a desproporção das reacções que incluíram ameaças físicas.
Eu sou alfacinha - sou o gajo mais ofendido do mundo porque quem não é de cá gosta de referir-se a Lisboa como se fosse apenas o centro de decisão política; como se a cidade se resumisse às sedes dos partidos políticos, aos ministérios e à Assembleia da República.
A malta de Lisboa são os chulos, os preguiçosos, os corruptos, essas coisas todas.
Por outro lado toda a minha família é do Alentejo que é a região mais gozada no País por causa das anedotas.
Se eu alinhasse pela bitola do "quem não se sente..." passava os dias a pregar o ódio e a indignação.
Cada um faz as suas escolhas e eu escolhi não andar a ameaçar pessoas por causa de tolices, muito menos se forem ditas em programas de humor.
Uma coisa é não gostar de uma piada, outra coisa é ameaçar ir às fuças ao pretenso comediante.
Porque se tu podes dizer que "quem não se sente não é filho de boa gente", eu também posso dizer que a mim só ofende quem eu quero.
E acho que é preciso ser-se pequenino e inseguro em relação ao amor pela sua terra para se ficar indignado com aquela tolice.
É como a história dos fundamentalismos; é preciso imaginar um Deus muito poucochinho para achar que ele se incomoda com cartoons...
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De Kok a 08.06.2016 às 11:03

Bom dia e... haja paciência!
Concordo com a ideia de serem "poucachinhos" os que se ofendem por tão pouco.
Nem percebo que sejam ameaçados de morte pessoas como o Markl (e o filho) que é menos inofensivo que uma ameixa.
E que diabo, de entre tantas coisas bem mais gravosas que são ditas e feitas por gente cujas posições afectam verdadeiramente a nossa vida, insurgir-se nestes termos contra o que diz José Cid tem algum nexo?
Repito-me: haja paciência!

1 abraço pah!
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De Fernando Caeiro a 09.06.2016 às 00:00

Se tivesse sido anunciado um "brutal aumento de impostos" provocava menos polémica...

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