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Autismo

20.03.18

Autismo-Valério_Romão.jpg

“Autismo”, de Valério Romão, é um livro extraordinário.

Sim, o título diz tudo – é um livro sobre o autismo.

E sim, o autor sabe bem do que fala porque é pai de uma criança autista.

Ainda assim, é um romance belíssimo.

E digo “ainda assim” porque é de facto um romance; não é um livro escrito ostensivamente na 1ª pessoa nem um mero relato da experiência pessoal nem muito menos um panfleto sobre a doença.

É um romance arrebatador e durante uns dias eu dei por mim a trabalhar com vontade de voltar para casa, tratar dos miúdos, cumprir os serviços mínimos e ir para a cama ler.

Imagino que todos os pais de crianças com autismo o tenham lido.

Mas este livro devia ser de leitura obrigatória para todos os pais e mães, não tanto para darem valor à saúde dos seus filhos mas para sentirem um pouco da angustia e da dor permanente destes pais.

Acho que nos faz falta isto: sofrer pelos outros e sentir-lhes, ainda que temporariamente, o seu sofrimento.

Até porque sabemos bem que, como nos filmes pesados, quando aquilo “acaba” nós voltamos para a nossa vidinha...

Neste tempo em que despachamos a solidariedade para com os outros num post de facebook que nos leva 1 segundo a partilhar e somos todos contra a guerra e o "câncer", ler este livro é um murro no estômago à antiga.

O livro é escrito por um homem e acho que isso se nota; eu pelo menos senti-me tão identificado com as angustias da personagem masculina que não consegui deixar de pensar nisso o tempo todo. Normalmente o género do escritor é-me indiferente mas aqui senti um homem por detrás da escrita e acho que isso acrescenta valor ao livro.

Vi as relações e os sonhos, a sensibilidade e a revolta, as fragilidades e o desencanto tal como penso que eu próprio a sentiria.

E senti como, de alguma forma, todos falhamos às nossas mulheres.

Nós somos uma merda mas ainda assim esforçamo-nos e amamos.

É por isso que todos, homens e mulheres, pais e mães, deviam ler este livro - para nos amarmos mais e nos compreendermos melhor – para não desistirmos de tentar perceber o mundo do outro.

Não sei se é fácil encontrá-lo nas prateleiras das livrarias mas pode encomendar-se on-line.

Autismo é um livro cru, a preto-e-branco, sem pinceladas de cor ou de esperança, sem expectativas de redenção; é uma janela aberta para um quarto escuro.

Mas é preciso lê-lo.

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publicado às 23:52

Se eu fosse um organizador de festivais de verão, sei muito bem qual era a primeira banda que tentaria contratar: as Pussy Riot.

E não é só por causa da recente colaboração com o David Sitek (dos TV on the Radio).

Não é porque agora estão numa onda mais pop do que o seu registo habitual como neste (muito bom) "Police State"...

Um Festival é mais do que uma sucessão de concertos avulsos; é um evento cultural que, juntando artistas de diversas origens, procura criar uma identidade comum que os une.

Por isso é que os festivais são diferentes.

Por isso é que há festivais onde as marcas atropelam os visitantes e outros onde os patrocinadores respeitam os espectadores; por isso é que há festivais que apostam na produção negligente de lixo enquanto outros investem em copos recicláveis.

No fundo, e independentemente do tipo de música, ao criar a sua imagem cada festival tenta criar a sua identidade e a sua ética. E é aí que entram as Pussy Riot

Um pouco na senda da frase “Save a life, save a world!" (que a Fundação Aristides de Sousa Mendes costuma usar como "assinatura") eu acho que quem luta pela sua liberdade, no seu País, luta pela liberdade de todos nós em todo o lado. E nisso de lutar pela liberdade as Pussy Riot são um dos grandes exemplos deste mundo porque arriscam a sua integridade, a sua liberdade e a sua vida.

Já foram presas, já foram deportadas para campos de trabalho forçado, já foram impedidas de comunicar com familiares e advogados, são agredidas, e voltam sempre ao seu activismo e à sua luta. Basta um passeio pelo youtube (como aqui) para ficar nauseado pela violência com que são tratadas e espantado com a sua coragem física...

A onda delas pode não ser a minha e se elas fossem Portuguesas talvez as achasse excessivas, panfletárias e radicas – mas elas fazem-no num País que é uma ditadura há séculos e onde lutar pela liberdade se paga frequentemente com a vida.

Mereciam que da parte do mundo livre alguém lhes estendesse a mão para lhes dizer que admiramos a sua coragem, a sua determinação e o seu apego à liberdade que no fundo é de todos nós; alguém que lhes dissesse “- Miúdas, querem vir tocar à nossa terra”.

Trazê-las cá, mais do que propor um concerto, seria fazer uma afirmação moral e ética pela liberdade e contra todas as formas de violência e de opressão.

No fundo a nossa geração só é livre porque alguém lutou por nós e pela nossa liberdade ainda antes de termos nascido; nós podíamos usar a liberdade que nos deram de graça para ajudar a promover a liberdade dos outros.

Só por causa disso, eu gostava mais de ver as Pussy Riot em Portugal do que qualquer outra banda.

Alguém arrisca?

Free Pussy Riot!

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publicado às 11:04

Permitido cães.jpg

De todas as polémicas palermas em que temos sido envolvidos, esta da lei que permite a entrada de animais em estabelecimentos comerciais é das mais parvas de todas.

Desde logo porque, enquanto lei, foi aprovada por unanimidade no Parlamento.

Sim, por unanimidade.

Eu não acho que a Assembleia da República “esgote” a sociedade civil. Mas quando uma lei é aprovada por unanimidade, talvez não estejamos propriamente perante uma “polémica”. Digo eu...

Só os estabelecimentos comerciais que quiserem é que vão permitir a entrada de animais, e só as pessoas que quiserem viver essa experiência é que lá vão entrar – mais simples e livre é impossível.

Perante isto, estar contra esta lei é tão estúpido como estar contra a existência de restaurantes japoneses com o argumento de que não se gosta de peixe cru, ou estar contra a abertura de restaurantes mexicanos e indianos porque o excesso de picante pode fazer mal.

Meus amigos: quem quer vai, quem não quer não vai.

O problema não está na lei nem nos animais nem nos donos nem no suposto politicamente correto.

O problema está numa sociedade civil sopeira que acha que deve opinar sobre a vida dos outros e o que fazem os outros; pior do que isso, uma sociedade civil que se sente no direito de interferir na vida dos outros, como se a vida dos outros interferisse na sua.

É um bocado como um heterossexual ser contra o casamento gay - como se isso mexesse na sua própria vida.

Nesta discussão, como em tantas outras, não há razão dos dois lados nem opiniões diferentes: há apenas as pessoas que percebem que têm liberdade para ir e não ir onde lhes apetece, e a malta com espírito de porteira quadrilheira que, por terem vidas mais poucochinhas e muito tempo livre, passam o tempo a ver e a opinar sobre a vida dos outros.

Deve ser chato estar a jantar e de repente ver o Bobby da mesa do lado a arrear um triplex castanho e pastoso. Mas quem não quiser correr esse risco, só tem que fazer o que sempre fez – ir aos restaurantes onde costuma ir onde não entram animais (é o que eu pessoalmente conto fazer).

Eu quero lá saber se há quem goste comida crua ou cozinhada, se há quem goste de carne ou prefira vegetariano, se gostam de ir jantar com a namorada ou com o Farrusco ou com ambos...
A vida dos outros interessa-me pouco; nisso sou muito pouco tuga, sou muito pouco sopeiro.

Ou como dizia o chavão do filme, get a life...

 

(nota do editor: este texto foi escrito por um tipo que adora animais, que tem uma cadela, e que não está a pensar de todo ir almoçar ou jantar fora com ela)

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publicado às 23:10

A notícia causou alguma surpresa e polémica: a Fórmula 1 decidiu que em 2018 deixarão de existir as “pit-babes” ou “grid girls” ou o que lhes quiserem chamar – são aquelas miúdas giras e com pouca roupa que animavam as grelhas de partida de cada Grande Prémio.

A razão de ser desta “surpresa” e da consequente “polémica” assenta em dois pressupostos: algumas pessoas não acompanham a Fórmula 1 e não sabem que tem uma nova administração/gestão, enquanto outras pessoas não se deram conta de que os tempos estão a mudar – a junção destes dois factores deu origem a reações indignadas que se compreendem à luz deste duplo desconhecimento.

Vamos por partes.

 

Parte 1.

A Fórmula 1 já não é propriedade de um octogenário que a geria de forma autocrática, ao sabor das suas birras, do seu ego e da sua desmesurada ambição (Bernie Ecclestone). Agora foi comprada por um grupo americano (Liberty Media) que quer tornar este desporto (ainda) mais universal e atrativo para novas gerações e novos mercados.

Quem segue com mais atenção a Fórmula 1 sabe que 2017 foi um ano de absoluta revolução interna no que diz respeito à promoção e ao marketing da modalidade. A medida de acabar com o “espetáculo” das pit-babes não só não surpreende como até seria, de alguma forma, espectável.

Aliás, as pessoas que seguem o automobilismo já sabiam que a FIA tinha acabado há 2 anos com as grid girls no WEC (World Endurance Championship) que é o mais importante campeonato de resistência do mundo e inclui a mais e conhecida prova automobilística do mundo: as 24h de Le Mans.

Concorde-se ou não, é preciso andar um bocadinho distraído para, 2 anos depois, ficar muito surpreendido com o alargamento da mesma medida à Fórmula 1.

Não é a minha opinião, são os factos.

 

Parte 2.

As Grid Girls são, eram, um resquício de um tempo que já passou.

E nem sequer estou a pensar nos conceitos de machismo, objetificação feminina e seus derivados. Nem é necessário recorrer a argumentos de ordem moral que, já se sabe, são sempre subjetivos.

Basta olhar para o calendário, constatar que estamos em 2018 e perceber que os hábitos de consumo se alteraram radicalmente.

Há umas décadas atrás era o homem quem trabalhava, ganhava o sustento da família e naturalmente decidia o que se consumia. O homem é que comprava o carro, escolhia os lubrificantes, decidia se bebia cerveja ou whisky e qual a sua marca preferida de aperitivo, o homem é que fumava e comprava tabaco, etc.

É apenas natural que o marketing fosse essencialmente dirigido a eles.

Mas por muita pinta que achemos ao Steve McQueen, ou por muita nostalgia que o bigode do Graham Hill ou as patilhas do Jackie Stewart nos causem, esse mundo acabou; pelo menos no ocidente.

As mulheres tornaram-se (muito) mais independentes, passaram a trabalhar, a ganhar dinheiro autonomamente e a decidir o que consomem.

Em princípio qualquer homem que tenha mãe, irmã, mulher, namorada, amigas, primas, conhecidas, colegas de trabalho, etc., e não viva na Arábia Saudita será testemunha deste facto e dessa alteração no paradigma do consumo.

As marcas sabem que em 2018 não basta escolher uma copa F e uma mini-saia de latex para vender um produto. E é por isso que as Pit-Babes acabaram – acabaram porque aquela época acabou e economicamente aquela estratégia de marketing deixou de fazer sentido para a comunicação de muitas marcas.

Com ou sem #metoo, as Pit-Babes estavam condenadas a desaparecer.

Mas há quem ache que o desaparecimento destas beldades das grelhas de partida é só mais uma cedência cobarde ao “politicamente correto” e mais uma vitória do feminismo radical.

A esses dá vontade de recuperar o “It’s the economy, stupid.” do Bill Clinton.

Neste caso seria “It’s the capitalism, stupid.”

É o capitalismo, pá.

As mulheres já não compram só detergentes e as marcas já não comunicam só com decotes, perceberam?

E se as Grid Girls desapareceram de Le Mans 2 anos antes do advento #metoo, se calhar não existe uma relação causa efeito entre os dois acontecimentos...

Mais uma vez, não é a minha opinião - são os factos.

 

Parte 3.

E agora vamos à minha opinião...

Eu gosto de ver mulheres bonitas, e nas grelhas de partida da Fórmula 1 a apresentação até primava pelo bom gosto. E era giro ver as diferenças regionais porque cada organização recrutava localmente as suas grid girls o que fazia com que o “espetáculo” fosse diferente no GP de Itália, do México ou do Japão.

Mas por muito bonitas que sejam e por muito bom gosto que tivesse a sua apresentação nas grelhas da Fórmula 1, nada diminui o facto de que naquela ocasião as mulheres estavam a ser utilizadas apenas como meros acessórios decorativos.

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E eu não vibro com esse estatuto...

Eu sei que elas não são obrigadas a fazê-lo, muitas serão modelos profissionais e são pagas para isso, mas eu olho para esta foto e não é esta imagem do mundo que quero para os meus filhos.

É isso. Ou como disse o Flávio Gomes (uma instituição do jornalismo motorizado no Brasil), “neste caso o 'politicamente correto', na verdade, é só o 'correto'”.

 

Parte 4

Querem uma Grid Girl a sério?

Eu dou-vos uma: chama-se Christina Nielsen, é gira que se farta e foi a campeã IMSA em 2016 e 2017!!!

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Sim, ela é vistosa e passeia-se nas grelhas de partida.

Mas em vez de andar vestida de bibelot e a fazer de jarrão sexy, veste o fato de competição, põe o capacete e ganha corridas e campeonatos.

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Ela é tão fixe mas tão fixe (mas tão fixe) que a Lego até vai lhe vai dedicar um set este ano.

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Espero que muitas miúdas sigam o seu santo exemplo e ajudem a transformar o mundo num sítio com mais igualdade e menos preconceito.

Este ano ela partiu-me o coração e foi para a Porsche mas ainda assim...

GO CHRISTINA!!!

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publicado às 22:49

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O movimento #metoo trouxe para o centro da agenda a discussão sobre o assédio, a violência e outras formas de abuso sobre as mulheres.

E teve o condão de o fazer em relação a duas realidades em que se calhar pensamos menos: o mundo ocidental e as mulheres economicamente bem sucedidas (é sempre mais fácil pensar em desigualdades de género noutras partes do mundo ou relativamente a mulheres em situação de maior dependência económica).

Por todas as razões e mais estas duas, este movimento de denúncia e consciencialização foi e é tão importante.

Mas como seria de esperar, logo apareceu quem quisesse desvalorizar o movimento por achar que as mulheres devem é estar no “seu” lugar, usufruindo dos direitos que lhe são oferecidos em vez de andarem por aí a lutar por mais liberdade, mais direitos e, sobretudo, mais respeito pelo seu estatuto de igualdade. Sem surpresa também, algumas dessas pessoas críticas do movimento são mulheres.

Entre outras coisas, alega-se que o movimento deu origem a algumas denuncias exageradas e alguns excessos de moralismo, e que esses exageros minam a credibilidade do movimento.

E eu fico a pensar: terá havido algum movimento cívico na História da Humanidade onde não tenham ocorrido alguns excessos?

Será que as lutas pelos direitos cívicos das minorias raciais não tiveram alguns exageros? Será que o movimento das sufragistas não os teve? Será que as várias lutas pela liberdade no mundo ou autodeterminação dos povos não tiveram excessos?

Caramba, os benefícios da vitória dos aliados na II Guerra Mundial são moralmente questionáveis por causa dos excessos de Hiroshima ou de Dresden?!?

Perante aquilo que é a condição das mulheres no mundo, será que aquilo que devemos combater é a luta das mulheres por mais respeito pelos seus direitos?

O mérito deste movimento, para mim, reside precisamente no facto de ter o seu epicentro no ocidente.

Sabemos que milhões de mulheres e raparigas foram (e são) vítimas de mutilação genital e sabemos o que é estatuto da mulher em numerosos países muçulmanos onde uma mulher violada pode ser condenada à morte por prática de sexo fora do casamento, ou ser condenada a casar com o seu violador para que a relação passe a ser legal aos olhos do Profeta - perante estes cenários, não poder conduzir (como na Arábia Saudita) é um detalhe.

Ainda assim, isso é no chamado 3º mundo.

Mas será que temos consciência do que é a situação da mulher no “nosso” mundo*?

Que 1 em cada 4 raparigas nos EUA sofre de abuso sexual antes de completar 16 anos?
Que 1 em cada 5 jovens sofrem abuso sexual dentro das universidades nos EUA?
Que 1 em cada 4 adolescentes do Reino Unido sofre violência física pelos seus próprios namorados?
Que 1 em cada 4 adolescentes francesas são vítimas de assédio pela Internet.
Que cerca de 1/3 das mulheres e raparigas italianas são vítimas de violência física ou sexual.


Por cá as estatísticas da APAV falam em 14 agressões diárias contra mulheres em contexto de violência doméstica mas sabemos que apenas uma pequena percentagem das agressões chega a ser conhecida por medo e/ou vergonha da vítima.

Mas quando a PSP e GNR afirmam que em 2016 tivemos 700 mulheres vítimas de crimes sexuais, facilmente compreendemos que a realidade é bastante mais aterradora do que as estatísticas oficiais.

O que sabemos é que em Portugal assassinamos quase uma mulher por semana em contexto de violência doméstica.

E perante este quadro dantesco, vem a Catherine Deneuve com umas amigas e explicam-nos que o que se deve combater é o movimento #metoo por fomentar o ódio, o excesso de puritanismo, e vêm afirmar o direito do homem a importunar a mulher.

Não acredito que a Catherine Deneuve seja uma pessoa má; é apenas uma pessoa que provavelmente vive numa tal redoma de vidro que não imagina o que é o mundo onde vivem as outras mulheres.

No fundo, no meio da anedota que é o seu manifesto “Defendemos a Liberdade de Importunar”, Catherine Deneuve é apenas a loira burra.

O estatuto das mulheres, mesmo no ocidente, é de subjugação e inferioridade. E as exceções que conhecemos, os bons exemplos de verdadeira igualdade, são isso mesmo: exceções.

Todos os passos que forem dados em prol de uma maior tomada de consciência do problema da violência e da desigualdade de género são positivos e necessários, mesmo que ocasionalmente originem alguns excessos (tal como sempre acontece com todos os movimentos de massas).

O movimento #metoo é um excelente exemplo de uma sociedade civil proactiva, que tem sentido crítico e que exige mais igualdade e justiça.

Mesmo que uma ou outra loira burra, de tão burra, não o consiga compreender...

 

* Dados compilados pela Kering Foundation e encontrados aqui

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publicado às 00:18

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Abro o jornal e leio a notícia de que as pensões acima de 5.147€ não vão ser aumentadas em 2018.

Só há uma conclusão a tirar: as pensões abaixo deste valor vão ser aumentadas.

Quem ajuda a pagar? As empresas e os trabalhadores no activo, claro – são eles quem sustenta o Orçamento Geral do Estado.

Convém recordar que em Portugal o salário médio não chega aos 1.000€, e que mais de 1/5 dos trabalhadores recebe apenas o ordenado mínimo.

Trocando isto por miúdos, vamos ter os trabalhadores que ganham o ordenado mínimo (ou que ganham 600 ou 700€) a contribuir, mesmo que indirectamente, para o aumento das pensões daqueles que, estando reformados, ganham 3.000 ou 4.000€ .

É uma espécie de Robin dos Bosque mas ao contrário: tira-se a quem tem menos para dar a quem tem mais. Em matéria de “justiça social” ficamos conversados.

Mas a propósito de “miúdos”, convém recordar também que Portugal é um País com poucos miúdos, em acelerada desconstrução demográfica, e não é preciso ser-se especialista para saber que os pensionistas (salvo raras exceções) não têm filhos a cargo, ao passo que que muita da população activa os tem (ou planeia tê-los).

Estamos assim a colocar as famílias de rendimentos baixos que têm filhos a cargo a ajudar a pagar para as reformas das pessoas que têm rendimentos altos e já não têm filhos a cargo.

Esta prioridade fará sentido num País com a pirâmide demográfica invertida?

Este modelo de “distribuição de riqueza” em que se penalizam os que têm menos para beneficiar quem tem mais pode parecer saído da cabeça de um qualquer Trump da vida, mas não; sai da cabeça do governo das esquerdas unidas de Portugal, da cabeça do António, do Jerónino e da Catarina.

Não quero com isto deixar nenhuma crítica objectiva à “esquerda”, longe disso. Já cá ando há tempo suficiente para saber que se o governo fosse de “direita” aconteceria o mesmo.

Mas não deixa de ser curioso (e revelador) que no primeiro governo de esquerda unida da nossa história, que conta com o apoio expresso do Bloco de Esquerda e do PCP, se assumam opções políticas que não envergonhariam um qualquer governo do PSD com o apoio do CDS.

Quem perde é também a diversidade democrática.

É que se até agora a alternância no poder só tinha colocado em São Bento governos com o apoio do PS, PSD e CDS, hoje sabemos que afinal, com PCP e BE, tudo é mais ou menos igual.

Na Suíça, por exemplo, estabeleceu-se um tecto que ronda os 1.700€ para as reformas mais altas. O governo Suíço entende que 1.700€ é um valor que permite a um pensionista viver com dignidade, e o dinheiro que é poupado por não se pagarem reformas milionárias é utilizado para compensar as reformas mais baixas.

Bom, mas talvez isso aconteça porque a Suíça é um País pobre.

Aparentemente Portugal é um País mais rico do que a Suíça, pode dar-se ao luxo de pagar reformas milionárias e o atual governo está cá para o assegurar.

É bonito ver um governo de esquerda tão solidário com o povo; se o caviar está caro, a nossa esquerda está cá para ajudar quem precisa...

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publicado às 00:01

Sou amigo do João Rôlo há uma carrada de anos.

Bom, isso agora interessa pouco porque já estamos com aquela idade em que conhecemos (quase) todos os amigos há uma carrada de anos...

Mas conheço o Rolo e sei bem como ele sonhava com a ideia de correr em África.

Acalentámos juntos o sonho daquele Dakar; ele e o Nuno Santos faziam a prova de mota e eu e um grupo de amigos da empresa patrocinadora (a Filter Queen e a Hydroworld) acompanhávamos as primeiras etapas em Marrocos.

Estava tudo tratado, estava tudo marcado, estava tudo sonhado, só faltava vivê-lo.

Mas entre politiquices e (alegadas) razões de segurança a organização optou por cancelar o Rally Lisboa Dakar de 2008 na véspera da partida...

Foi um dos piores dias das nossas vidas.

Dakar-2008.jpg

(o João Rôlo e o Nuno Santos desolados, frente aos Jerónimos, numa partida simbólica para o Dakar 2008 que nunca aconteceu)

 

Mas já se sabe que o sonho comanda a vida...

A empresa que faz aquele Dakar foi vender o seu produto para outras paragens, a América do Sul, e isso abriu espaço a que outras pessoas organizassem um Rally Raid em África, com a meta no mítico Lago Rosa - em Dakar.

Sim, há um Dakar que acaba em Dakar e que já vai na 10ª edição.

E este Rally não é para brincadeiras, meus amigos.

São 15 dias de prova com especiais cronometradas de centenas de quilómetros, muita areia, muitas dunas, muita pedra e muita navegação, tudo dentro do espírito do Dakar original do Thierry Sabine.

O simples facto de a organização estar nas mãos do Jean-Louis Schlesser e do René Metge diz tudo sobre o espírito e a dureza do Rally.

 

E este ano lá estava o João Rôlo à partida, a realizar o seu sonho de fazer o maior Rally Raid de África.

O Rôlo, que em miúdo fazia a Portalegre numa 50cc, está finalmente a galgar as dunas de Marrocos e da Mauritânia.

E está a fazê-lo na modalidade mais dura, a “malle moto”, sem mecânico(s) nem equipa de assistência: faz a sua etapa (7/8 horas em cima da mota) e à chegada faz a sua manutenção, monta a tenda, dorme um pouco, desmonta e na manhã seguinte volta a arrancar.

E eu (e os amigos) ficamos para aqui com o coração nas mãos a torcer para que tudo corra bem. Todas as tardes lá vou eu ao site da prova ver se ele já chegou ao fim da etapa. E se não chegou fico ralado.

Vou para casa e ligo o computador como uma mãezinha preocupada a ver se o nome dele já aparece na lista dos que chegaram.

E quando ele chega sinto uma mistura de alegria e alívio e saio pela casa a correr: “O RÔLO JÁ CHEGOU” - grito eu para avisar toda a gente.

Obrigado João Rôlo por estares a realizar o teu sonho e por me deixares preocupado contigo todos os dias.

 

Porque é que vos estou a contar isto?

Porque tenho orgulho no meu amigo Rôlo e no seu esforço, e porque os nossos desportistas precisam do nosso apoio.

Se vocês forem visitar a sua Página Oficial João Rôlo Racing  os seus patrocinadores terão um pouco mais de visibilidade e isso é fundamental para que mais empresas arrisquem apoiar pilotos portugueses.

Se nós apoiarmos os nossos desportistas eles vão ser mais apetecíveis para as marcas e isso vai ajudar a desenvolver o nosso desporto e o nosso País.

Podem acompanhar a prova do João Rôlo na página oficial do Africa Eco Race (ele é o nº 130).

Vale (mesmo) a pena ir vendo os vídeos que o site divulga todos os dias e acompanhar aqueles loucos aventureiros a percorrerem os míticos desertos do Norte de África.

Deixo-vos com algumas fotos que ele tem publicado.

Sigam-no, apoiem o desporto nacional e deliciem-se com as imagems...

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500km, 600km, todos os dias - são 5 a 8 horas em cima da mota a dar o máximo...

 

 

 

 

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Muitas vezes dorme-se onde se pode aproveitando todos os bocadinhos e sombras.

 

 

 

 

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Na chegada de cada etapa o João Rôlo faz a sua própria assistência.

 

 

 

 

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Com a mota pronta para o dia seguinte, é preciso alisar o chão antes de montar a tenda.

 

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Aquela é a mítica "malle moto" - é tudo o que um piloto nesta categoria de "solitário" pode levar de peças suplentes para esta prova de 2 semanas e 6.500 kms...

 

 

 

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E no dia seguinte, por muito cansado que estejas, mais kms e dunas e kms e dunas e kms e dunas e kms e dunas e kms e dunas e kms e dunas...

 

 

Mas tudo o que desejamos é que ele chegue ao fim, feliz e realizado!!!

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VAI RÔLO... DÁ-LHE GÁS... 

 

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publicado às 21:39

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Até há 2 dias atrás vi muita gente interessada em demitir a Ministra da Administração Interna e muita gente preocupada com o facto de haver quem a quisesse levar à demissão - gente ralada com a crispação que ela despertava, incomodada com as perguntas da imprensa, indignada com os pedidos de demissão, maçada com a pressão de que era alvo, etc.

E dá-me vontade de perguntar: das 3 palavras da frase “morreram cem pessoas”, qual é que ainda não perceberam?

Mas a verdade é que parece que não percebemos.

Falamos de 100 mortos como se fosse um incómodo, uma espécie de contratempo - como se fosse um engarrafamento em Agosto a caminho da praia ou um apagão quando estávamos a ver a Guerra dos Tronos.

O PS diz que não tem responsabilidades apesar de ser o actual governo e de ter sido governo durante décadas no passado; o PSD diz que não tem responsabilidades apesar de ter liderado o último governo e de ter sido governo durante décadas no passado.

Vejo gente a discutir se o discurso do PR prejudica a esquerda ou se certo jornalista é de direita, como se os mortos tivessem cor política.

Morreram 100 pessoas e nos posts e caixas de comentários dos nossos amigos há quem se entretenha com o debatezinho de merda entre esquerda e direita.

E foi aí que percebi como de facto o interior do País está abandonado.

Morreram 100 pessoas, destruíram-se dezenas de milhares de vidas e nós estamos a discutir minudências.

 

O interior não foi só abandonado pelo poder político, foi abandonado por nós.

A primeira geração que migrou para o Litoral ainda foi mantendo alguma proximidade com aqueles lugares, a segunda geração talvez lá tenha ido brincar nas férias de verão e mantém alguma relação afectiva, mas a terceira geração já nem sabe onde ficam nem quer saber.

No fundo foi como se esses sítios tivessem morrido para a maior parte de nós.

E é por isso que estas 100 mortes, ocorridas muitas delas nesses sítios que para nós não existem, não despertem assim tanta urgência e permitem que o status quo do poder político se mantenha.

Morreram 100 pessoas, é certo, mas não eram propriamente pessoas como "nós".

Se um maluco qualquer se tivesse feito explodir no Chiado matando 10 ou 20 pessoas a nossa indignação colectiva seria provavelmente maior.

Mas não... eram só 100 pessoas, muitas delas idosas e quase sozinhas a viverem em lugares recônditos com nomes de terras que nos dão vontade de rir e que nem sabíamos que existiam.

O interior desertificou-se mas nós não o abandonámos apenas fisicamente; abandonámo-lo afectivamente e deixámos aquelas pessoas para trás.

Tornámo-nos tão urbanos que nos tornámos insensíveis a tudo o que não é o nosso modo de vida urbano.

A Dona Alzira que morreu não ia a discotecas à beira Tejo e o Sr. Joaquim que perdeu a quinta e o trator não ia a jantares gourmet em restaurantes da moda.

Também para que raio queria ele um trator? Nós aqui em Lisboa nunca precisámos de trator...

Ardeu uma serração e ficaram umas centenas de pessoas desempregadas?

Para nós não há problema porque as prateleiras do IKEA estão sempre cheias.

Ardeu um aviário com os animais lá dentro e esfumaram-se os empregos daquelas pessoas?

Paciência; se calhar há quem pense que os frangos nascem em embalagens de plástico já sem penas nem miudezas, e aqueles trabalhadores não são gente para ir ao Web Summit.

Desligámo-nos do nosso País e ele deixou de nos pertencer.

Morreram 100 pessoas em terras onde provavelmente nunca fomos, e havia gente preocupada com a chatice e as consequências que isso acarreta para quem estava no Terreiro do Paço ou em São Bento.

Uns queriam manter a Ministra para mostrar a solidez do governo, outros queriam provocar a demissão para abrir uma potencial brecha de fragilidade no governo.

Todos os partidos têm a sua agenda particular, os seus interesses e as suas clientelas, mas sabemos que 45% da população portuguesa vive nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

E se entretanto morreram 100 pessoas fora dos grandes centros, eu sinto que de alguma forma todos nós as abandonámos também.

É claro que o poder político as abandonou há décadas; mas o poder político só as abandonou porque sabe que aquelas pessoas e aqueles lugares foram abandonados por nós e deixaram de interessar à maioria.

Criámos uma distância tremenda entre “nós” e “eles”, e temo que essa distância nos pode vir a matar enquanto comunidade.

Mas é claro que ainda vamos bem a tempo de nos voltarmos a apaixonar pelo nosso País, pelos seus lugares, pelas suas gentes e pela sua diversidade.

Parecendo que não, já cá andamos há quase 900 anos...

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publicado às 23:59

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O Pinhal de Leiria deixou de existir.

Não me ocorreria metáfora mais grotesca para descrever este ano e a falência das nossas instituições.

Para os outros incêndios iam surgindo sempre explicações: donos negligentes, matas por limpar, território desordenado, interior desertificado, falta de cadastro florestal, micro propriedades , hectares com donos desconhecidos, donos que nem sabem que são proprietários florestais, condições meteorológicas adversas, acessos muito difíceis, etc.

E nós vamos assimilando essas justificações – elas fazem sentido.

Mas agora o Pinhal de Leiria deixou de existir.

O Pinhal de Leiria era muito mais do que um conjunto de árvores; aquilo não era uma mata, não era uma área florestal – era um monumento histórico, era património nacional.

Um projeto nacional com 700 anos, o primeiro e mais ambicioso projeto ecológico da nossa História: no século XIII foi mandado plantar um pinhal com o objectivo de travar o avanço das dunas, proteger a cidade de Leiria e os seus campos agrícolas. Esta ideia, visionária e revolucionária do séc. XIII, morreu ontem.

E não podia.

Eu sempre estive (mais ou menos) descansado em relação à segurança do Pinhal de Leiria.

Sabemos que o dono é o Estado, o dono tem meios ilimitados para o proteger, a região é habitada, não está abandonada nem desordenada, os acessos são bons, a zona é plana, enfim... era impossível que o Estado deixasse arder o Pinhal de Leiria.

Até ontem.

E é por isso que o fim anunciado do Pinhal de Leiria é tão grave.

Quando há um incendio em Mação ou Oleiros, é o Pais que arde.

Mas quando arde o Pinhal de Leiria, é o Estado que arde.

Já nem é uma questão de culpar ou demitir.

Ontem ardeu o Estado Português.

Ardeu o Governo e a Presidência, ardeu o Tribunal Constitucional e a Assembleia da República – o Estado Português deixou oficialmente de funcionar como se tivesse sido suspenso.

Ligamos a TV, vemos as notícias e parece que a realidade é virtual como se estivéssemos a ver uma série de ficção com imagens de um qualquer país em guerra.

Aquilo (isto) já não parece ser um País a sério.

Ontem deflagraram 523 incêndios. Como dizia um antigo Primeiro Ministro, é fazer as contas: são mais de 20 incêndios por hora - um novo incêndio a cada 3 minutos.

É claro que não há forma de combater uma monstruosidade destas; é irracional e insano. Não estou a desculpabilizar ninguém, longe disso, mas não sei se haverá algum País no mundo capaz de combater eficazmente um novo fogo florestal a cada 3 minutos.

E isso só reforça a ideia de descontrolo; parece que o Estado deixou de existir e estamos por nossa conta, cada um por si.

Ontem ardeu o Pinhal de Leiria.

Que é como quem diz, ontem ardeu o Estado Português.

E eu acho que o Estado Português nem sequer deu conta disso...

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publicado às 23:30

Unicef-rohingya.jpg

VAMOS AJUDAR?!?

A Unicef só nos escreve muito de vez em quando.

Pelo Natal, a agradecer o apoio prestado e a pedir para o renovar, ou quando há merda da grande.

Tipo... merda tão grande que nem uma organização do tamanho da Unicef/ONU consegue reunir os meios necessários para acudir a uma emergência.

Em Myanmar existe uma comunidade, os rohingya, que não possui direitos de cidadania: estão impedidos de viajar sem autorização oficial, impedidos de trabalhar em instituições públicas ou privadas, impedidos de possuir terras e impedidos de aceder ao sistema de educação.

Sendo alvo de perseguições desde há décadas, esta comunidade começou a ser alvo de uma operação de limpeza étnica sistemática a partir de 2013.

Diz a carta da Unicef:

“A violência contra este povo empobrecido e perseguido há anos intensificou-se enormemente nas últimas semanas. Desde 25 de Agosto mais de 410.000 rohingyas, dos quais 260.000 são crianças, atravessaram a fronteira com a roupa que tinham no corpo.

Contam histórias horríveis de rapto, de morte, de casas incendiadas.

E o êxodo continua com novas chegadas todos os dias ao Bangladesh.

A maioria das crianças chega só com as mães, pois os pais ou estão desaparecidos, foram mortos ou ficaram em Myanmar, mas algumas chegam sozinhas. Para além da dor e do trauma que sentem neste momento, estas crianças estão expostas a doenças, fome, exploração, deixando-as num enorme estado de vulnerabilidade.”

 

Podíamos abrir um debate sobre responsabilidades e culpas, questões políticas, religiosas e étnicas, mas este não é manifestamente o local (nem o momento).

Neste momento há centenas de milhares de crianças num estado desesperado e nós até nos podemos queixar da inércia da chamada “comunidade internacional”.

Acontece que nós também somos a tal “comunidade internacional”.

Para que a comunidade internacional seja algo de que nos possamos orgulhar, podemos dar um primeiro passo: ajudar.

Façamos a nossa parte antes de nos queixarmos das falhas dos outros.

Todos temos um cartão multibanco e todos podemos contribuir consoante as nossas possibilidades.

Todos os donativos ajudam mesmo os que possam parecer insignificantes; a título de exemplo, se 84 pessoas oferecerem um euro (1€) a Unicef consegue colocar no terreno mais 20.000 pastilhas de purificação de água.

Por outras palavras, todos os euros ajudam a salvar vidas.

Em vez de nos queixarmos de que o telejornal só dá desgraças, vamos ajudar um bocadinho a minorar esta tragédia.

Vamos ser um bocadinho mais cidadãos e mais solidários – vão ver que depois de ajudar se sentem melhor.

Com sorte até vão querer fazer disso um hábito.

VAMOS AJUDAR?!?

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publicado às 18:28


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