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O movimento #metoo trouxe para o centro da agenda a discussão sobre o assédio, a violência e outras formas de abuso sobre as mulheres.

E teve o condão de o fazer em relação a duas realidades em que se calhar pensamos menos: o mundo ocidental e as mulheres economicamente bem sucedidas (é sempre mais fácil pensar em desigualdades de género noutras partes do mundo ou relativamente a mulheres em situação de maior dependência económica).

Por todas as razões e mais estas duas, este movimento de denúncia e consciencialização foi e é tão importante.

Mas como seria de esperar, logo apareceu quem quisesse desvalorizar o movimento por achar que as mulheres devem é estar no “seu” lugar, usufruindo dos direitos que lhe são oferecidos em vez de andarem por aí a lutar por mais liberdade, mais direitos e, sobretudo, mais respeito pelo seu estatuto de igualdade. Sem surpresa também, algumas dessas pessoas críticas do movimento são mulheres.

Entre outras coisas, alega-se que o movimento deu origem a algumas denuncias exageradas e alguns excessos de moralismo, e que esses exageros minam a credibilidade do movimento.

E eu fico a pensar: terá havido algum movimento cívico na História da Humanidade onde não tenham ocorrido alguns excessos?

Será que as lutas pelos direitos cívicos das minorias raciais não tiveram alguns exageros? Será que o movimento das sufragistas não os teve? Será que as várias lutas pela liberdade no mundo ou autodeterminação dos povos não tiveram excessos?

Caramba, os benefícios da vitória dos aliados na II Guerra Mundial são moralmente questionáveis por causa dos excessos de Hiroshima ou de Dresden?!?

Perante aquilo que é a condição das mulheres no mundo, será que aquilo que devemos combater é a luta das mulheres por mais respeito pelos seus direitos?

O mérito deste movimento, para mim, reside precisamente no facto de ter o seu epicentro no ocidente.

Sabemos que milhões de mulheres e raparigas foram (e são) vítimas de mutilação genital e sabemos o que é estatuto da mulher em numerosos países muçulmanos onde uma mulher violada pode ser condenada à morte por prática de sexo fora do casamento, ou ser condenada a casar com o seu violador para que a relação passe a ser legal aos olhos do Profeta - perante estes cenários, não poder conduzir (como na Arábia Saudita) é um detalhe.

Ainda assim, isso é no chamado 3º mundo.

Mas será que temos consciência do que é a situação da mulher no “nosso” mundo*?

Que 1 em cada 4 raparigas nos EUA sofre de abuso sexual antes de completar 16 anos?
Que 1 em cada 5 jovens sofrem abuso sexual dentro das universidades nos EUA?
Que 1 em cada 4 adolescentes do Reino Unido sofre violência física pelos seus próprios namorados?
Que 1 em cada 4 adolescentes francesas são vítimas de assédio pela Internet.
Que cerca de 1/3 das mulheres e raparigas italianas são vítimas de violência física ou sexual.


Por cá as estatísticas da APAV falam em 14 agressões diárias contra mulheres em contexto de violência doméstica mas sabemos que apenas uma pequena percentagem das agressões chega a ser conhecida por medo e/ou vergonha da vítima.

Mas quando a PSP e GNR afirmam que em 2016 tivemos 700 mulheres vítimas de crimes sexuais, facilmente compreendemos que a realidade é bastante mais aterradora do que as estatísticas oficiais.

O que sabemos é que em Portugal assassinamos quase uma mulher por semana em contexto de violência doméstica.

E perante este quadro dantesco, vem a Catherine Deneuve com umas amigas e explicam-nos que o que se deve combater é o movimento #metoo por fomentar o ódio, o excesso de puritanismo, e vêm afirmar o direito do homem a importunar a mulher.

Não acredito que a Catherine Deneuve seja uma pessoa má; é apenas uma pessoa que provavelmente vive numa tal redoma de vidro que não imagina o que é o mundo onde vivem as outras mulheres.

No fundo, no meio da anedota que é o seu manifesto “Defendemos a Liberdade de Importunar”, Catherine Deneuve é apenas a loira burra.

O estatuto das mulheres, mesmo no ocidente, é de subjugação e inferioridade. E as exceções que conhecemos, os bons exemplos de verdadeira igualdade, são isso mesmo: exceções.

Todos os passos que forem dados em prol de uma maior tomada de consciência do problema da violência e da desigualdade de género são positivos e necessários, mesmo que ocasionalmente originem alguns excessos (tal como sempre acontece com todos os movimentos de massas).

O movimento #metoo é um excelente exemplo de uma sociedade civil proactiva, que tem sentido crítico e que exige mais igualdade e justiça.

Mesmo que uma ou outra loira burra, de tão burra, não o consiga compreender...

 

* Dados compilados pela Kering Foundation e encontrados aqui

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publicado às 00:18



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