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A base do negocio da máfia assenta na cobrança de dinheiro por um serviço inexistente que é inventado apenas para extorquir: os estabelecimentos comerciais que já existiam têm que pagar uma suposta taxa de segurança para poderem continuar a existir.

Mas na prática esse pagamento não corresponde a nenhum benefício ou serviço ou aumento de segurança – é apenas uma cobrança imposta pela força porque a entidade que cobra, a máfia, tem o poder de impor represálias a quem não pagar.

 

Para mim faz todo o sentido pagar pelos serviços que utilizo.

Faz sentido que pague (e bem) pelo estacionamento num parque subterrâneo ou num silo automóvel: alguém investiu (muito) para que aquela infraestrutura fosse criada e deve ser compensado por isso – é justo.

Da mesma forma, não me custa pagar para estacionar num local onde houve trabalho ou investimento por parte da concessionária seja no arranjo de passeios, na criação de mais lugares de parqueamento, maximização do espaço público, etc.

E faz todo o sentido que numa cidade existam zonas onde a ocupação do espaço público seja paga, nomeadamente nas mais centrais e/ou sobrecarregadas de comércio e serviços que atraem mais visitantes.

O facto de a EMEL cobrar pelo estacionamento nesses locais é uma forma de regular a utilização de um espaço que é de todos, precisamente para que possa ser usado por todos.

 

O problema é que a Câmara Municipal de Lisboa percebeu que tinha ali uma mina e podia impor a cobrança coerciva de taxas a quem não tem alternativa, mesmo em locais onde a EMEL não faz falta, não faz sentido, onde não há nada para regular e onde não presta nenhum serviço: os bairros residenciais.

 

Foi por isso sem grande espanto que um dia cheguei ao meu bairro e vi que tinham andado a pintar lugares de estacionamento no chão.

E isto do pintar é importante porque não fizeram nada para além de pintar marcas no chão: não melhoraram, não arranjaram, não adaptaram, não beneficiaram, não investiram, não criaram, não acrescentaram valor, nada; apenas marcaram o espaço público como propriedade sua.

Tal como um gang mafioso chega a um bairro e pinta uns graffitis para se mostrar como quem diz “isto agora é nosso”, a EMEL também ocupa ruas onde só estacionam moradores e pinta no chão as suas marcas do “isto agora é nosso”.

Os moradores destes bairros residenciais de Lisboa vão começar a pagar mais para usufruírem de um espaço que já era seu e pelo qual já pagavam através dos impostos.

 

Mas o serviço que supostamente lhes é prestado não presta.

Nas zonas não invadidas pela EMEL cada carro tem o seu tamanho: o SMART do vizinho solteiro ocupa 2 metros e picos, e o monovolume da família numerosa ocupa 5 metros; os carros colam-se uns aos outros, traseira com dianteira, porque todos os moradores querem rentabilizar o espaço para que caibam o maior número de carros.

Quando a EMEL entra em acção, essa solidariedade cívica é abolida e todos os carros passam a ocupar o mesmo espaço estandardizado; e com isso perdem-se naturalmente lugares de estacionamento.

Para além disso, nas zonas antigas e de passeios estreitos (como a minha) a colocação de parquímetros vai necessariamente condicionar a circulação de peões.

Tem um carrinho de bebé? Paciência. Passe pelo meio dos carros e vá com a criança para o meio da estrada que o passeio agora é propriedade da EMEL.

Por estas razões, entre outras, quando a EMEL ocupa um bairro residencial degrada as condições de vida dos habitantes - reduz o nº de lugares de estacionamento em locais onde eles já são escassos, prejudica a circulação e ainda cobra por isso.

Os moradores passam a pagar uma espécie de multa anual (como se morar em Lisboa e ter carro fosse uma infracção ao código da estrada) mas continuam a estacionar onde sempre estacionaram; tudo isto sem que sejam impostas à entidade que cobra nenhumas obrigações ou deveres para além do direito de extorquir dinheiro.

Convenhamos... mais mafioso do que isto é difícil.

 

Para tornar esta extorsão ainda mais requintada, nada como impor prazos.

No meu bairro o prazo para pagar a multa de residente já acabou, o dístico já foi enviado com a respectiva data de validade mas os parquímetros ainda não foram sequer colocados.

Conclusão: o dístico que foi pago para ter a duração de um ano só vai ter validade efectiva durante alguns (não sei quantos) meses.

Mas não faz mal; como o objectivo da medida é apenas cobrar sem prestar nenhum serviço, qualquer valor ou prazo é bom para a concessionária.

Nos negócios mafiosos é assim: é tudo lucro para quem tem a razão da força e o poder de exercer represálias.

emel2.jpg

 

 

 

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publicado às 18:05


30 comentários

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Luis Fonseca a 08.04.2017

"Da mesma forma, não me custa pagar para estacionar num local onde houve trabalho ou investimento por parte da concessionária seja no arranjo de passeios, na criação de mais lugares de parqueamento, maximização do espaço público, etc."

Mas a Câmara Municipal de Lisboa não faz isto? Qualquer pessoa minimamente atenta terá já reparado nas obras de repavimentação e reorganização dos estacionamentos em Lisboa. E a EMEL não é uma fonte de receita da CML?

No meu caso que moro em Odivelas, sem a EMEL, não pagaria absolutamente nada pelo desgaste que faço nas ruas quando vou de carro a Lisboa. Também não me parece correcto que tenham de ser todos os portugueses a pagar a minha utilização das ruas de Lisboa.
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Fernando Caeiro a 08.04.2017

"Mas a Câmara Municipal de Lisboa não faz isto?"
Eu não escrevi que a CML não faz isso; escrevi exactamente o contrário, mas acrescentei que que no meu bairro a CML não o fez.
Não é uma opinião, é um facto.

Quanto ao resto, todos os portugueses pagam, com os seus impostos, os orçamentos de todos os municípios.
Por isso, quando a Câmara de Bragança, ou de Lisboa, ou da Ilha do Pico pavimentam uma rua, são "todos os portugueses" que pagam - é a vantagem de morar num País...
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Jose Azevedo a 09.04.2017

100 por cento de acordo devolvam as ruas ao cidadão
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PAULO FEIJAO a 09.04.2017

Mas daqui a uns dias O Sr. Medina e outros que tais encherão a boca com a democracia e a vontade do povo e o 25 de Abril e mais não sei o quê!
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Anónimo a 10.04.2017

Concordo em pleno com o autor do blogue. É uma máfia sim sr. Tive um problema ao estacionar nas proximidades do Casino Estoril, onde o parqueamento é pago 24h por dia. Estacionei e demorei cerca de 20 minutos. Como não esperava demorar tanto, confesso que arrisquei e já sendo cerca das 22h, nao coloquei a moeda no parquímetro. Reparei no entanto se alguém estava multado..não, ninguém estava. Reparei num Jaguar estacionado que nao tinha pagamento, nem dístico de morador, mais à frente um Mercedes de um Sr. que eu sei que não mora lá, mas é apenas frequentador do Casino, sem pagamento do respectivo estacionamento. Nos cerca de 30 carros estacionados na mesma zona, apenas um carro tinha pago. Cheguei ao meu carro pelas 22,20, portanto 20 minutos depois e lá estava o papelinho da multa. O Jaguar continuava intacto e os restantes, Mercedes incluído também. Eu e mais um outro carro fomos os únicos multados. Procurei o fiscal e nem vê-lo. A PSP de serviço no local, disse-me que ele andava por ali, mas não não consegui encontrá-lo. Reclamei à empresa que gere o estacionamento e obtive as respostas mais absurdas, como por ex: Que os carros não multados já tinham pago por antecipação, outros com avenças, outros ainda pertencentes a Exºs Srs. cujos pagamentos foram feitos pelas suas secretarias, directamente à empresa e mais umas quantas barbaridades que já nem me lembro. Quanto ao fiscal "desaparecido em combate" estaria segundo eles na zona, eu é que não procurei bem. Talvez, afinal só procurei o homem durante cerca de uma hora. Depois de muitos e-mail´s entre empresa e eu, resposta final: Tem mesmo de pagar. Não paguei e nem sei se o farei. Tal como diz o autor deste blogue, também no local nada foi feito para melhorar alguma coisa, apenas marcaram os lugares e nada mais, retirando espaço para mais estacionamento. Em nota final, não estou a falar da Emel, mas de uma empresa similar pertencente a Cascais. Mas os tentáculos da Máfia estendem-se como sabem...
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David a 10.04.2017

A EMEL para mim é uma desgraça. Moro numa zona de Lisboa onde em certos dias é o "Texas" para estacionar. Já me aconteceu umas quantas vezes não encontrar lugar ou estacionar na minha rua que não tem concessão da EMEL e no dia seguinte.........puffffff, carro bloqueado!!

O mais grave é que me dirigi sempre aos lugares que estavam destinados a residentes e para os quais pago dístico, e havia dezenas de carros que não podiam lá estacionar. Quando falei com Sr agente da policia Municipal que ironicamente estava a 20 metros dos infratores, ele remete o assunto para a EMEL. Nem se deu ao trabalho de tentar resolver o problema. Sei que quando fui bloqueado, havia umas quantas pessoas como eu, que estacionaram ali em desespero de causa, porque não havia alternativa!! Isto para mim é muito grave, eu gostava era que a EMEL me devolvesse o dinheiro dos carros bloqueados pela policia municipal (que estavam a 20 m dos infratores e foram tão incompetentes quanto os da EMEL) e começasse a controlar realmente o que se passa nos parques por eles concessionados. Assim é simplesmente uma vergonha!
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Cidalia a 13.04.2017

e por que razão eu tenho casa em Lisboa. Não é domicilio fiscal logo não tenho direito a concessão paga de estacionamento. para impostos pago todos. Porque não tenho direito por escritura a um retângulo de Rua? Sim um selo por proprietário!
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Cidalia a 13.04.2017

Gastam milhões no rejuvenescimento da cidade de Lisboa e onde estão os contentores para lixo que podiam ser embutidos no chão? Em Loures existem grandes em Lisboa poucos e pequenos. Soltos . Um indivíduo vai com um saco e anda de um lado para o outro à procura.
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Gonçalo Peres a 07.06.2017

Não concordo de todo com a argumentação do autor.
A EMEL foi a melhor coisa que aconteceu no meu bairro residencial. Antes da EMEL chegar, todas as passadeiras e esquinas tinham carros estacionados ilegalmente, incomodando e aumentando o risco de atropelamento para todos, especialmente crianças. Durante o dia todo, havia sempre carros a circular, constantemente à procura da "agulha no palheiro", gerando poluição do ar e sonora. Enfim, as ruas eram inseguras e nada amigas das pessoas (fora dos carros, somos todos peões), com o ar pesado.
Desde que chegou a EMEL todos estes problemas foram resolvidos e a qualidade de vida aumentou significativamente. O tráfego inútil desapareceu e agora, quem vem de carro e quer estacionar, encontra logo um lugar.

Está na altura de sermos racionais e parar de demonizar a EMEL, quando a culpa é do excesso de automóveis, associado à falsa ideia dos que ainda acham que têm direito a ocupar 12 m2 do espaço público à superfície, ao pé de casa, do trabalho, da escola, do comércio, etc. Para isto existe a iniciativa privada que deve provir este serviço de estacionar uma viatura privada. Os recursos públicos devem se concentrar na saúde, educação, segurança, justiça, mobilidade sustentável (transportes públicos de qualidade, mobilidade pedonal e ciclável) e em espaços verdes. O carro continuará a ser usado por quem dele precisa, mas a partir do momento em que demasiadas pessoas querem ter um carro para se deslocarem na cidade, deixa de funcionar e fica infernal para todos. Mais estacionamento e, pior, à borla, é um incentivo ao uso do carro. E todos saímos prejudicados.

E não sou eu que o digo. São realidades que estão a acontecer um pouco por todas as cidades, tentando corrigir décadas de planeamento urbano, em que erradamente se pensou que o automóvel privado era a solução para a mobilidade urbana.
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Anónimo a 07.06.2017

E o Sr. Presidente da Câmara esqueceu-se das pessoas com limitações de mobilidade?Onde estão os lugares públicos reservados para pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas dentro de outras viaturas? è o meu caso, tenho um filho com necessidades especiais que se desloca comigo na sua cadeira de rodas dentro do meu carro e em que lugares de Lisboa posso eu encontrar um lugar especifico para tal? Em práticamente nenhum lugar da cidade. Se a existência destes lugares já era escassa agora é quase inexistente. Será que o Sr. Presidente da Cãmara só vai lembrar das pessoas com necessidades especiais de mobilidade quando tiver na sua família um caso destes? Possívelmente sim, porque infelizmente as pessoas só valorizam verdadeiramente as situações difíceis quando elas lhe batem á porta. Lisboa tornou-se uma cidade para os turistas e os lisboetas ficam de fora!

Muito boa nopite
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Anónimo a 14.04.2018

Plenamente de acordo com tudo que li e ainda acrescento uma dúvida que me tem consumido...porque será que o equipamento da Emel foi concebido para não dar trocos???sera assim tecnicamente tão complicado?

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